Ultimamente tenho me dedicado,
por força da Escola, a outros amigos, como por exemplo, Ecléa Bosi, Hanna
Arendt, Karl Marx, Peter Berger, Thomas Luckmam, Émile Durkheim, Max Weber,
Franz Boas, Clifford Geertz, Pierre Boudieu, Joachim Wach, Mircea Eliade, Guy
Rocher, Rudolf Otto, James Thrower, e pouco tempo tem restado para outras
leituras. Mas fui provocado pelo Clube de Autores com o livro de Maurício
Coelho e Cristiano Penido, “A estratégia para derrotar o PT”. Gostaria de dizer
que não sou PT e menos ainda PSDB. Ao contrário, penso que tanto o PT como o PSDB
já deram o que tinham que dar. Solicitei o livro que li numa sentada. Trata-se
de dois consultores de estratégia política que fazem um relato sobre as eleições
presidenciais de 2015, onde é analisada não a vitória da Dilma Rousseff sobre
Aécio Neves, e sim, a derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff. O livro analisa
de maneira interessante o que chamam de “bola fora” por parte dos candidatos
Dilma e Aécio e seus marqueteiros durante a campanha, no primeiro e no segundo
turno. À época em que o livro foi escrito o quadro político era diferente do
qual se encontra hoje, final de março e início de abril/2015. Como dizia Tancredo
Neves, avô do Aécio, a “política é igual nuvem no céu”, isto é, em constante
mudança. No livro dão como certo a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva em
2018, e para derrotá-lo, o possível candidato da oposição, Aécio Neves, precisa
adotar a “estratégia do retorno”, isto é, “criar um ambiente onde ele possa
usar o discurso que lhe era favorável durante a eleição”. Deixam a entender que
houve erro básico levado a efeito pelo marqueteiro do Aécio Neves. "Usando a "Estratégia do retorno", Lula se tornará um herói do passado (ou como as pessoas gostam de dizer: alguém que já deu o que tinha de dar). É assim que o Brasil pode, por meio da oposição, vencer o PT nas urnas". No entender dos autores Lula deu de tudo para o Brasil, inclusive um gerente que não gerenciou. É um livro
interessante que faz uma análise bem diferenciada do que vimos pela imprensa
escrita e televisiva, e mesmo por alguns autores que publicaram sobre o fato.
'A História é a majestosa Tôrre da Experiência que o tempo erigiu no espaço infindo dos anos decorridos. Não é fácil tarefa alcançar o cimo desse antigo edifício e gozar da vista dum panorama completo; não há ali elevador, mas os moços tem os pés fortes e podem tentar-lhe a ascensão. Aqui vos dou a chave que vos abrirá a porta. Quando votardes, compreendereis a razão do meu entusiasmo', Hendrick Willem Van Loon.
31 de março de 2015
31 de janeiro de 2015
A FUNÇÃO DO ENSINO E A FORMAÇÃO DO PROFESSOR UNIVERSITÁRIO / Thereza Marini. Paulus. São Paulo. 2013
Mais que um livro abordando A função do ensino e a formação do professor universitário, é um convite a professores universitários a uma autoavaliação de suas condições de ensino a partir de sua leitura, pontuando mudanças ocorridas - se é que houve - contrapondo fatos e exemplos recorrentes ao escrevê-lo. É um chamado a reconstrução de um pensamento novo e ousado à formação do professor universitário no Brasil. O trabalho retrata uma pesquisa realizada no período de 1978 - 1983, na UNESP, com 143 professores representando áreas de Ciências Exatas, Humanas, Saúde e Tecnológicas, percentual este, correspondente a 10% do total de professores da instituição, considerado o tempo de docência de 1 a 17 anos. Assevera que a partir da reforma universitária, 1968, assistiu-se, na universidade, ao embate de duas pedagogias: a humanista e a tecnocrática. Enquanto na primeira o homem é visto como o fim da educação, na segunda, ele é tomado como investimento racional e produtivo para o desenvolvimento econômico. Nesse embate, acabam por prevalecer a concepção e o encaminhamento tecnocrático. Recorre a Paulo Freire ao propor uma educação verdadeiramente humanista: não se trata de estender ao outro conhecimentos técnicos ou de depositar nos educandos informações ou fatos, assim como não é a 'perpetuação dos valores de uma cultura dada' nem um 'esforço de adaptação do educando ao seu meio'. A educação, na sua concepção humanista e, portanto, libertadora, é uma situação em que educando e educador são 'ambos sujeitos ao conhecimento que os mediatizam", e conclui, a educação superior pede um professor capaz de fazer do seu ensino a 'dobradura da porta' que se abre do passado para o presente, que prepara o futuro. Coloca o dedo na ferida, ao afirmar que a competência do professor se manifesta pelo conhecimento e habilidades. Saber o que ensinar e como ensinar. Não há mais espaço para improvisação na práxis educativa.
23 de janeiro de 2015
A FILOSOFIA EXPLICA AS GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE/Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu: Casa do saber. São Paulo. 2013.
Conheci um dos autores, Clóvis de Barros Filho, numa entrevista no programa Canal Livre, na rede Bandeirantes de Televisão, juntamente com Mario Sergio Cordella, abordando um livro de autoria de ambos. Depois, num vídeo numa dessas aulas de pós-graduação, hoje sustentada por esse tipo de recurso ou o famigerado PowerPoint, ninguém merece. Trata-se da reinvenção da sala de Aula cujo resultado as notas das redações do ENEM acabaram de mostrar. Mas deixa isso pra lá, vamos falar do livro. Clóvis de Barros Filho faz o gênero stand up em suas apresentações, provavelmente, também, na sala de aula. Não deixa de ser um recurso, melhor alias que o PowerPoint. Júlio Pompeu eu não conheço, mas tive excelente impressão sobre seus escritos: Poder, Dominação, Justiça e Lei e Virtude. Os quatro primeiros temas: Ética, Moral, Liberdade e identidade ficaram sob a responsabilidade de Clóvis de Barros Filho. Os textos foram compilados de palestras que ambos fizeram nos espaços culturais Casa da Palavra e Casa do Saber. Um texto espirituoso e conciso em sua parte teórica, capaz de ampliar o campo de visão e de redefinir a vida sob nova perspectiva. Conteúdo consistente e essencial, principalmente àqueles que partem para uma prova de redação no ENEM.
17 de janeiro de 2015
NÃO ESPERE PELO EPITÁFIO - provocações filosóficas/Mario Sergio Cortella. Vozes. 2013.
Livro lançado em 2005, reeditado em 2013, trás uma seleção de crônicas publicadas pelo autor no jornal Folha de São Paulo, no período de 1994 a 2004. Pensatas (pensata, termo não encontrado nos dicionários da língua portuguesa, trata-se de uma palavra italiana traduzida como pensamento ou ideia e que também é encontrada significando ata, registro do pensamento, documento do pensamento) sobre questionamentos comuns ao ser humano contemporâneo, enriquecidas de sobremaneira através do cabedal cultural do autor. Me atenho a que recebe o título de Inteligência artificial, onde provoca o computador e seu uso, nós dá a dimensão exata da discussão nos cursos de formação de docentes, onde a palavra de ordem é a reinvenção da aula expositiva e o uso do computador na educação: a síndrome da modernidade. Sugere cautela com o que chama de informatolatria asseverando: tecnologia em si mesma não é requisito exclusivo para avaliar e fomentar a qualidade da produção e da vida humana. Enfim, Não espere pelo epitáfio é uma viagem questionadora do ser humano numa plataforma teórica que vai da filosofia, poesia, romance até a música popular brasileira.
22 de dezembro de 2014
A GUERRA DO PODER – 1964: a história real que o Brasil nunca revelou/documentos secretos da Ditadura Militar no Brasil. Rivaldo Chinem. Discovery Publicações. São Paulo. s/D.
Charles Kiefer assevera que é o “título
que faz a primeira ponte com o mundo, é o primeiro gancho de interesse, a
primeira luz do farol no nevoeiro”. Assim é o livro de Chinem. Oitenta páginas,
onde o autor relata historicamente a revolução de 1964 de janeiro a dezembro
daquele ano entremeando história - tomando por referência historiadores como
Hélio Silva, Thomas Skidmore, Luiz Adolfo Pinheiro, Elio Gaspari, Jorge Caldeira
– com fatos e curiosidades com base na obra de Ana Maria Bahiana – Almanaque 1964.
Um projeto gráfico interessante, páginas de miolo marcadas com tarja pretas,
cores chamativas e modernas muito bem usadas na capa e no seu interior, porém,
sem a data de edição e sem apresentação dos ‘documentos secretos’ anunciados no
título da obra. Embora não concorde com o autor de que esta seja “a história
real que o Brasil nunca revelou”, existem outras obras reveladoras sobre o
assunto, é um livro interessante, barato, R$19,90, que merece ser lido.
26 de agosto de 2014
CONSTRUINDO O PODER POPULAR / Plínio Arruda Sampaio,1930 - São Paulo. Paulus, 2014.
Desde muito cedo Plínio Arruda Sampaio esteve estreitas relações com movimentos hoje denominados Eclesiais de Base e com a esquerda, ou seja, na interpretação de Bobbio, aqueles para os quais "a natureza humana não está definida a priori, não nascemos assim ou assado, mas somos produzidos pelo meio ambiente". Construindo o poder popular vem ao encontro de sua posição ideológica, ao propor um compêndio prático, como diz seu editor - "um instrumento de trabalho" onde apresenta exemplos de como associações ou grupos de pessoas devem proceder diante de uma reclamação ou reivindicação. Em seus capítulos desnudam aspectos básicos do processo: a força para conseguir a vitória, o objetivo da campanha, os adversários, os aliados, o conhecimento do assunto e a divisão de tarefas para se conseguir êxito naquilo que se deseja. Enganam-se aqueles que imaginam que esse livro-manual destina-se, em absoluto, aos movimentos populares. É de uma didática pedagógica universal escrito em linguagem simples e direta.
13 de agosto de 2014
EDUCAÇÃO, ESCOLA E DOCÊNCIA: novos tempos, novas atitudes/Mario Sergio Cortella. - São Paulo: Cortez, 2014.
Cursos de pós-graduação e Pesquisas têm trabalhado a andragogia, salas de aulas do ensino superior, dinâmicas e processos de aprendizagem, estratégias de ensino e aprendizagem, educação inclusiva, etc. Neste contexto, não se pode desconhecer a quantidade e velocidade com que o conhecimento chega às pessoas. Os tempos mudaram, as gerações mudaram, a tecnologia mudou, aliás, tudo mudou. É ai que começa a discussão. O que é velho e o que é idoso. O que é moderno e o que é novo. O que é novo e o que é inédito. Cortela assim conceitua: Idoso é aquele que tem bastante idade, velho é aquele ou que já está pronto, que acha que não precisa mais aprender, que acha que não conseguirá mais aprender. Idosa é uma pessoa de 60, 70, 80 anos de idade, velho pode ser com 20, 30, 40, ou 60 anos de idade'. Quanto a proposta de um novo modelo educacional para o país alerta para que 'novo' não seja confundido com 'inédito'. E a plataformas existentes jamais acabará com o professor, como a televisão não acabou com o cinema. Será sim, uma ferramenta a mais. Aborda um assunto delicado, que é a questão de estar professor e não ser professor. E aí, faz uma distinção: 'emprego é fonte de renda e trabalho é fonte de vida ... É onde faço algo que me confere uma remuneração. Trabalho é aquilo que eu poderia fazer até de graça, e o faço como sentido da vida. Conceitua docência como um modo de existir ... uma maneira de ser humano ... um chamamento espiritual ... Mais forte do que uma simples vocação, Enfim, um livro que trás questionamentos interessantes, digno do pensador Mario Sergio Cortella.
12 de agosto de 2014
MEIO AMBIENTE & CEMITÉRIOS / Alberto Pacheco. - São Paulo : Editora Senac São Paulo, 2012.
Noutro dia numa aula de pós mencionei este livro. Não precisa de dizer a reação de meus colegas. Realmente é um tema tabu que às vezes leva ao macabro. Sempre que procuro escrever tenho o cuidado de estudar sobre o assunto que escrevo. Não é nada interessante ficar no senso comum. Principalmente, quando o escrito tem como objetivo uma publicação. Meio Ambiente & cemitérios faz parte de uma coleção 'Série Meio Ambiente" coordenada por José Ávila Aguiar Coimbra, publicada pela Editora Senac São Paulo. Traz informações de interesse a profissionais, estudantes em arquitetura, ecologia, saúde publica, história, dentre outros. Iniciando no período pré-histórico aos dias atuais, o livro faz uma abordagem riquíssima sobre as práticas funerárias, incluso a putrefação dos corpos e seus efeitos para o meio ambiente. Observa a necessidade de se discutir os cemitérios por se tratar de 'um dos elementos indispensáveis a qualquer aglomerado populacional' garantindo a 'decomposição normal do corpo e aspectos respeitantes à utilização e à salubridade.
MEIO AMBIENTE & TEOLOGIA / Alex Villas Boas. - São Paulo: Editora SESC São Paulo, 2012.
Mais um livro pertencente à Coleção Meio Ambiente publicada pelo Sesc, sob a coordenação de José de Ávila Aguiar Coimbra. Mas o quem tem de semelhante entre a Ecologia e a Teologia? A verdadeira aliança da História que persiste acreditar na vida, define o autor. A busca do 'bem viver'. Se a maneira de consumo dos Estados Unidos da América se estendesse ao restante do Planeta, avaliam os ecologistas que teríamos a necessidade de mais três planetas para acumular o lixo produzido. E então? Ruth Benedict afirma em um de seus livros que 'a cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo'. O sentido da vida é o 'humano do humano'. É desvencilhar-se do que desumaniza. Para ser responsável pela vida, há que ser também responsável pelo Planeta. Chegou-se a um estágio de inteligência analítica (noos) que não mais se questiona o porque viver, mas a razão (Logos) de como viver.
27 de maio de 2014
ÉTICA E VERGONHA NA CARA / Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho. – Campinas, SP: Papirus 7 mares, 2014.
No
momento em que os poderes constituídos na nação brasileira, executivo,
legislativo e judiciário vivem uma crise de credibilidade, onde o foco
principal é a corrupção analisada em seus vários matizes, os professores Mário Cortella
e Clovis de Barros através de um diálogo fazem uma abordagem sobre o conceito
de ética. Definem como ética como a arte do conviver bem para além dos prazeres
individuais, justificando que não somos como os animais que possuem uma relação
instintiva com a natureza. Enquanto humanos temos a capacidade de considerar o
outro levando em consideração nossas escolhas, nossa conduta. Asseveram que a
corrupção sempre existiu e sempre existirá, o que temos atualmente é mais
denúncia em função do estado democrático e recusa na apuração dos fatos. O mesmo
colocam com relação à violência, que consideram bem menor que antanho, o que
temos hoje são mais notícias e rejeição a ela no nosso cotidiano. Enfim, um
diálogo entre a concretude da ética e a prática da moral
14 de março de 2014
OS BEN$ QUE OS POLÍTICOS FAZEM: história de quem enriqueceu durante o exercício dos mandatos / Chico de Gois – Rio de Janeiro: LeYa, 2013.
O escritor, por
motivos óbvios, evitar uma coletânea de volumes, elegeu alguns parlamentares municipais, estaduais e federais
para retratá-los. Ante de terminar a leitura de suas 282 páginas, me veio à
cabeça uma utopia: se o cidadão brasileiro trabalha cinco meses no ano para
pagar impostos, porque não uma trégua em relação à corrupção publica e privada ou
publico/privada no Brasil em igual período de tempo? Certamente, seríamos a
nação mais rica do mundo! Aquela que realmente poderia afirmar ser Deus de
nacionalidade brasileira. Não se trata de absorver o que se encontra no
imaginário popular de que todo político é ladrão, ou de aquiescer o rouba, mas
faz. É ter consciência de que a corrupção existe e sempre existirá como sempre
existiu. Mas, as recentes publicações sobre esse tema no Brasil através do
jornalismo investigativo mostra uma realidade inacreditável, sem limites. Embasado
em obras clássicas como ‘A arte de Furtar’ atribuída ao padre Antonio Vieira, ‘Os
donos do poder’ de Raymundo Faoro, ‘Coronelismo, Enxada e Voto’, de Victor
Nunes Leal, ‘Cidadania no Brasil – o longo caminho’, de José Murilo de Carvalho
e, ‘Os contos e os vigários – uma história da trapaça no Brasil’, de José
Augusto Dias Junior, Chico de Gois faz uma análise de que no Brasil o
patrimonialismo é uma marca de nascença, Sérgio Buarque de Holanda trata desse
assunto em ‘O homem Cordial’. ‘Dirigentes tratam o governo como algo
que lhes pertence e que existe, antes de tudo, para o seu próprio usufruto’.
São 10 narrativas como parlamentares aumentaram ‘milagrosamente’ ou ‘competentemente’
seus patrimônios durante seus mandatos. Uma pequena amostragem. Ressalta não
tratar-se de regra geral, claro! Existem as exceções.
Luiz Humberto Carrião
(l.carriao@bol.com.br)
12 de março de 2014
SIMÓN BOLÍVAR por Karl Marx / tradutora Vera Ribeiro. – São Paulo: Martins, 2008.
Marx foi contratado em 1857 por
Charles Dana, diretor do New York Daily Tribune, para escrever sobre temas de
história militar, biografias e outros assuntos váriados na New American
Cyclopaedia, onde coube a redigir o verbete sobre Simón Bolívar. O livro é
aberto por uma introdução – O Bolívar de Marx – de autoria de José Aricó, intelectual
marxista argentino, seguido do texto de Marx - Bolívar y Ponte – e, finalmente,
o Epílogo assinado por Marcos Roitman Rosenmann e Sara Martinez Cuadrado,
professores da Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense,
de Madri. Dialogar sobre um mito, discutir um mito é algo plenamente aceitável,
porém, contestar o mito já não é bem assim. O trabalho de Marx neste verbete
foi encontrado por Aníbal Ponce, nos arquivos de Marx-Engels-Lenin, de Moscou,
numa tarde de fevereiro de 1935. Fazendo a leitura de que a história de Bolívar
encontra ‘envolta numa espessa nuvem de lendas’, e suas ideias
hispano-americanas ‘de criar uma federação com todos os povos da cultura
espanhola’ fez escola, resolveu trazê-lo ao público latino. Para uns, ‘uma
avaliação política induziu Marx a interpretar Bolívar como autoritário e
bonapartista, e a projetar sua hostilidade política, como costumava a fazer, no
conjunto das atividades e até na própria personalidade do Libertador, a quem
ele zombou encarniçadamente ao longo de seu extenso ensaio’. Para outros, Marx
visualizou que naquele processo histórico, que ‘a ordem imposta pela vontade de
Deus não pode ser alterada pela vontade dos homens. Com esses postulados,
Bolívar restabeleceu a escravidão e procedeu à expulsão dos povos indígenas das
terras comunais. A propriedade latifundiária consolidou-se e os povos indígenas
foram despojados de suas terras. Com todos esses antecedentes, poderia Marx ter
outra imagem do Ditador Supremo?’ Marx apresenta uma biografia de Bolívar bem
diferente daquela que o transformou em mito pela historiografia latino-americana.
Um texto de fôlego que precisa ser conhecido e discutido por cientistas sociais
e historiadores.
Luiz Humberto Carrião
(l.carriao@bol.com.br)
22 de janeiro de 2014
IDEIAS E PRÁTICAS FASCISTAS NO BRASIL / (org) Natália dos Reis Cruz. – Rio de Janeiro: Gramond, 2012.
Fascismos, modernidade e ‘pós-modernidade.
A tentação conservadora / Gisele dos Reis Cruz e Jerônimo Marques de Jesus
Filho.
A Ação Integralista Brasileira
(AIB). Nacionalismo, Antissemitismo e Fascismo / Natália dos Reis Cruz.
Nem só mãe, esposa e professora:
os múltiplos campos de atuação da mulher militante integralista / Leandro
Pereira Gonçalves e Renata Duarte Simões.
Fascismo, Antifascismo e os Italianos
no Brasil entre as duas Guerras Mundiais / João Fábio Bertonha.
Imagens a serviço da propaganda
política da Ação Integralista Brasileira / Tatiana da Silva Bulhões.
O Nazismo no Brasil: uma breve leitura
sobre a organização e a estrutura do partido / Nara Maria Carlos de Santana.
O Integralismo e a contrarreforma
moral e intelectual nos anos 1950 / Gilberto Calil.
Pensamentos integralistas:
aportes e suportes para um movimento de direita / Maria Regina da Silva Ramos
Carneiro.
O neonazismo no Brasil. O caso da
Editora Revisão. Natália dos Reis Cruz.
No prefácio Márcia Maria Mendes
Motta – pesquisadora do CNPq e professora de História Moderna e Contemporânea
da Universidade Federal Fluminense define: ‘ao reunir, neste livro, os estudos
de uma nova geração de historiadores dedicados a analisar o fenômeno da
intolerância expresso no movimento fascista no Brasil, Natália Reis organiza
uma obra que vai na contracorrente dessa nossa memória apaziguadora, que nos
engana, que nos coloca sem culpa, mas – exatamente por isso – nos cega e não
nos permite ver como somos um país cuja história foi também construída no embate
entre forças sociais desiguais, visões distintas sobre as potencialidades dos
seres humanos e concepções diversas sobre o direito dos outros. Em outras
palavras, ao analisarem o passado e o presente de nossas experiências autoritárias
de tipo fascistas, os textos reunidos neste livro nos convidam a pensar sobre
um passado e um presente que não nos incomodam, pois são frequentemente
sublimados e mesmo esquecidos pela força de nossa memória nacional apaziguadora’.
A Revolução de 1930 trouxe em sua
algibeira o rompimento com uma prática política sustentada pelas oligarquias
rurais brasileiras, prática está já contestada pela classe média através de um
movimento significativo que foi o Tenentismo e culturalmente, a contestação
veio através da Semana de Arte Moderna de 22. Desses dois movimentos emergiram
duas lideranças: uma do exército brasileiro, Luiz Carlos Prestes, com a Aliança Libertadora Nacional Libertadora (ALN), de orientação moscovita e, de outro, Plínio Salgado,
intelectual destacado na Semana de 1922 com a Ação Integralista Brasileira (AIB).
Aos pesquisadores a busca
das ‘motivações e argumentos’ que levaram 1 milhão de pessoas, num universo de
40 milhões de habitantes, em 1930, a aderirem às ideias do Movimento
Integralista no Brasil. Também, uma foto publicada em ‘A Offensiva’, onde uma
mulher (Blusa-verde) de cor negra é documentada fotograficamente discursando
para homens num encontro integralista em 13 de julho de 1937.
Historicamente, tudo isso é muito
recente para ser ‘esquecido’ pela historiografia brasileira.
Luiz Humberto Carrião
(l.carriao@bol.com.br)
13 de dezembro de 2013
ESQUERDA CAVIAR – A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no Mundo - Rodrigo Constantino. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Record. 2013.
Rodrigo Constantino é presidente
do instituto Liberal. Formado em Economia pela PUC-Rio, tem MBA de finanças
pelo IBMEC e trabalhou no setor financeiro de 1997 – 2013. É autor de sete
livros: Prisioneiros da liberdade, Estrela cadente, As contradições e
trapalhadas do PT, Egoísmo racional, O individualismo de Ayn Rand, Uma luz na
escuridão, Economia do indivíduo e Privatiza já. Foi colunista da revista Voto,
do jornal Valor Econômico e do site Ordem Livre por vários anos. É colaborador
quinzenal do jornal O Globo e mantém um blog na Veja. É membro fundador do
Instituto Millenium e foi o vencedor do Prêmio Libertas em 2009, no XXII Fórum
da Liberdade.
Uma questão difícil para os
escritores é a dos títulos de suas obras. É a primeira ponte entre o obra e o leitor. Diria sê-lo aquele ‘tchan’ que desperta de cara o interesse.
Esquerda Caviar – deixa uma pergunta: o texto acompanhou o título, ou o título
acompanhou o texto? Isso pouco importa diriam uns, importa sim, diriam outros.
Mas ninguém poderá ao terminá-lo, em sua leitura de 432 páginas, de não admitir
que se trate de excelente título ao texto que o segue.
Não existe uma consciência entre o público e o privado no Brasil. Um dos construtores de nossa historiografia, Sérgio Buarque de Holanda, trata desse assunto na década de 1930, do século passado, em ‘O homem cordial’. No contexto da corrupção que deu origem a Ação Penal 470 (Mensalão) o operador do sistema, Marcos Valério, acusa uma dupla sertaneja que fez ‘showmício’ na campanha do PT a presidência de receber pagamentos milionários do partido no exterior. Outro cantor sertanejo conseguiu junto ao Ministério da Cultura autorização para captar 3 milhões de reais com benefícios fiscais para uma turnê comemorativa dos 30 anos de carreira através da Lei Rouanet. Outra cantora teve a mesma autorização para captar 1 milhão de reais para a edição de um blog. Uma casa noturna paulistana utilizando-se a mesma Lei e com autorização do MinC para a criação de um ‘painel artístico de difusão cultural nos segmentos da música, dança e artes cênicas dentro e fora do espaço físico’ a importância de 5 milhões e 700 mil reais. O mesmo ministério aprovou a captação de 2 milhões e 800 mil reais para um desfile de moda em Paris. O autor assevera que ‘a simbiose entre artistas e governo representa uma oportunidade de ouro para muitos’. Como poderão ser críticos do governo? E isso tem seu efeito cascata. Exemplo os 650 mil reais recebidos por uma cantora para a inauguração de um hospital público numa cidade do sertão mesmo antes do mesmo ser concluído. E o qual partido pertencia o então governador. Diz o autor que o livro é uma crítica àqueles que adoram defender Cuba de um luxuoso apartamento em Paris, França. Trata-se de um resgate da chamada ‘esquerda festiva’, no Brasil, nos anos 70 em diante, do século passado. O que o francês chama de ‘radical chique’ e o americano de ‘liberal limusine’. Uma crítica aos intelectuais, jornalistas, artistas e políticos que, sob as benesses do conforto capitalista, apresentam à sociedade um discurso hipócrita e demagógico.
O autor é bastante ácido com
aqueles que vivem ‘burguesamente’ bem e se propõe a uma pregação coletivista da
sociedade como solução para o fim das injustiças sociais. Esta é a chamada Esquerda
Caviar : “O sujeito vive bem, tem um carro novo, mora em uma casa legal,
percebe a futilidade exacerbada de sua mãe rica, preocupada com a nova bolsa
Louis Vitton de US3 mil que sujou um pouco, e vê nas ruas miséria, crianças
abandonadas, desgraça atrás de desgraça. Sem compreender muito bem as teorias
econômicas, as causas da riqueza, ele desenvolve certa raiva do capitalismo e
logo abraça slogans populistas, receitas mágicas, pedindo a intervenção desse
ente abstrato que parece um messias salvador: o estado”. Também faz suas
incursões no exterior. “Podemos pensar em Deepak Chopra, que chegou a vender um
combo que misturava saúde, riqueza e espiritualidade, conquistando
pesos-pesados como Demi Moore, Cindy Crawford, Michael Jackson, Steven Seagal e
Madona. Quem pode levar a sério a um sujeito que tem um livro chamado As 7 leis espirituais dos super-heróis e
outro intitulado Supercérebro: como
expandir o poder transformador de sua mente?”
Ao adjetivar a palavra ‘esquerda’
o autor diferencia o que é comumente entendido pela essência Marxista do que os homens
fizeram a partir de um matiz, as ideias de Marx, que na visão de Jacques Atali, 'a parte alguns fundadores de religiões, nenhum homem exerceu no mundo uma
influência comprovável a que Marx exerceu no século XX’. Só que suas ideias
foram objetos de deferentes interpretações e apropriações de maneira tal, que o
próprio Marx ao se deparar com essas interpretações e apropriações se disse não
marxista. Muito bem coloca sobre esta questão Francisco Buey: ‘ deve-se
distinguir o que Marx fez e disse como comunista e o que os outros disseram e
fizeram ao longo do tempo em seu nome’. A História de todas as sociedades –
inclusive a levada a efeito no livro, que defende o individualismo em detrimento do coletivismo – tem sido a história da
luta de classes. Basta tomar às mãos um compêndio de história e ler sobre o seu nascedouro. Li algures que ‘é importante frisar que Marx utiliza comumente
o termo ideologia com uma conotação pejorativa. O que existe hoje é o
falseamento da realidade, a inclinação dos criadores diante de
suas criações, ilusões próprias de todas ideologias que se pretendem universais, mas, que, na realidade representam os interesses particulares de classes sociais, no caso do liberalismo, a burguesia. Marx afirmou que ‘com a transformação da base econômica toda, a
enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração
de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação
material das condições econômicas de produção que pode ser objeto de rigorosa
verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas,
artísticas ou filosóficas. Resumo: as formas ideológicas pelas quais os homens
tomam consciência desse conflito e conduzem até o fim. Assim como não se julga
o que um indivíduo é a partir do julgamento do que ele faz de si mesmo, da
mesma maneira, não se pode julgar uma época de transformação a partir de sua
própria consciência, ao contrário, é preciso explicar esta consciência e partir
das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as
forças produtivas, sociais e a relação de produção’.
Uma pergunta que não quer calar:
a ‘burguesia caviar’ objeto de crítica do autor serve a quem? Um professor meu de
Produção Historiográfica Mundial definiu escrevendo: ‘Com o desenvolvimento das
sociedades capitalistas modernas, ocorreu um aprofundamento sem precedentes da
divisão social do trabalho que encontra seu ápice na cisão entre o trabalho
intelectual e trabalho manual. A tarefa de produzir conhecimento, o ato de
pensar passou a ser ‘função privilegiada’ de um segmento da elite, enquanto o
trabalho manual assumiu nitidamente uma conotação de inferioridade em relação à
produção intelectual’, daí segundo Buey, ‘surgirem as ideologias profissionais.
A ideologia se torna explícita e consciente. E, assim, também se particulariza
o sentido concreto em que nessas sociedades as ideologias representam as
ilusões que a classe hegemônica faz de si mesma e do seu papel no mundo’. Freud explica!
Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)
18 de outubro de 2013
O NOME DA CRISE É O PODER MILITAR, Sebastião Nery: Câmara Federal. Brasília. 1984.
O opúsculo reproduz o discurso pronunciado na Sessão de três de maio de
1984, pelo deputado (PDT) Sebastião Nery.
‘Com a história não se brinca. Ela acaba passando, como um trator, por
cima dos que não têm a audácia de construí-la, ou, pior ainda, daqueles que
tentam caminhar na contramão. E a contramão da história é o velório do amanhã’.
O escritor-deputado Sebastião
Nery, da tribuna da Câmara dos Deputados, tece uma crítica histórica sobre a
presença do militarismo na política brasileira. Inicia com a proclamação da
república, citando o jornalista Aristides Lobo, ‘o povo assistiu a tudo bestializado’;
depois da proclamação, o Deodorismo; o Movimento Tenentista, 1922 e 1924; a
dissidência dos tenentes, a Coluna Prestes, em 1925; a Revolução Liberal, em
1930, derrubando o presidente Washington Luiz e dando posse a Getúlio Vargas
que havia perdido a eleição para Julio Prestes; A presença na militar na Revolução
Constitucionalista de 1932; em 1937, no golpe do Estado Novo; Em 1945 na queda
de Getúlio; 1954 na pressão que levou Getúlio ao suicídio; 1955, na tentativa
de impedir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira; 1961, na tentativa
também de impedir a posse do vice-presidente João Goulart, com a renúncia de
Jânio Quadros; e, finalmente, com o golpe militar em 1964, adiado por Getúlio com
aquele tiro no peito.
Nery discorre sobre a função das
Forças Armadas constitucionalmente, senão vejamos: Constituição de 1824 – ‘A
força militar é obediente, jamais poderá se reunir sem que lhe seja ordenada
pela autoridade legítima’; Constituição de 1891 – As Forças Armadas são
essencialmente obedientes, dentro dos limites da lei, aos seus superiores
hierárquicos, e obrigadas a sustentar as instituições constitucionais’; Artigo
162, da Constituição de 1934 - ‘Destinam-se as Forças Armadas a defender a
Pátria e a garantir os poderes constitucionais: Constituição de 1946 – ‘Destinam-se
as Formas Armadas a defender a Pátria e garantir os poderes constitucionais’;
Constituição de 1969 – ‘Destinam-se as Forças Armadas a defender a Pátria e
garantir os poderes constituídos. Uma observação do deputado: ‘Isto é
inteiramente diferente. Então os militares que fizeram a República assumiram
perante a Nação o compromisso de garantir os poderes constitucionais. Os
militares que fraudaram a República mudaram: não se trata mais de garantir
poderes constitucionais, trata-se de garantir os poderes constituídos. Poder constituído
é o poder do poder'.
A pedra angular do discurso de
Nery era a forma truculenta com que o Gen. Newton Cruz executava as ‘medidas de
emergência’, em Brasília, quando das manifestações e votação da emenda constitucional
das diretas-já. Para o deputado o grande problema nacional naquele momento era
o problema militar, o problema do poder militar. ‘Hoje, todo coronel quer ser
general, todo general quer ser ministro, quase todo ministro quer ser
presidente da república’, e arremata: ‘Que garantia, temos nós, da paz, da
concórdia, da conciliação, se no Palácio do Planalto há quatro militares e um
civil, que é o escriturário dos quatro militares, o ilustre Ministro Leitão de
Abreu'? O deputado referia-se ao presidente da república Gen. João Baptista de Oliveira Figueiredo, os três ministros militares (exército, marinha e aeronáutica) e o
chefe da casa civil, ministro Leitão de Abreu, que não era militar.
Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)
14 de outubro de 2013
JÂNIO E A PETROBRÁS, José de Bálsamo: Fulgor. São Paulo. 1960.
Documentos decretos da política brasileira
A Petrobrás foi criada pelo presidente Getúlio Vargas através da Lei 2.004, de três de outubro de 1954, estabelecendo o monopólio estatal do petróleo para a exploração, refinação, transporte e lavra do petróleo. Foi constituída como empresa sociedade anônima, possuindo o Estado mais da metade do número de ações.
A Petrobrás foi criada pelo presidente Getúlio Vargas através da Lei 2.004, de três de outubro de 1954, estabelecendo o monopólio estatal do petróleo para a exploração, refinação, transporte e lavra do petróleo. Foi constituída como empresa sociedade anônima, possuindo o Estado mais da metade do número de ações.
Em 1959, o faturamento da empresa
foi de 37 bilhões de cruzeiros, aproximadamente o orçamento do Estado de São
Paulo, no ano anterior; a capacidade de produção de asfalto na usina de Cubatão
foi de 116 milhões de toneladas anuais, uma produção maior que o consumo
nacional; a produção de fertilizantes (adubos) foi de 100 mil toneladas; Em
1957 a produção americana era de 12,1 barris de petróleo por poço/dia, o Brasil
261 e a Venezuela 175,9. Em porcentagens do consumo nacional atendida pela
produção nacional, gás liquefeito 73%, gasolina automotiva 79%, querosene 57%,
óleo diesel 39%, óleo combustível 74%, asfalto 100%. A Petrobrás surge como a
maior organização industrial do Brasil. Em 5 anos de funcionamento já era a 8ª
companhia de petróleo e derivados do
mundo.
O que significavam esses números
para o império ianque? Um alerta. As posições nacionalistas da era Vargas e as
desenvolvimentistas de JK teriam que ser estancadas. Eleições se avizinhavam.
Que melhor candidato poderia existir, senão aquele que tivesse ojeriza ao
empreendimento estatal. Frear a Companhia Nacional de Alcalis, que já no ano de
1957, libertou o país da importação de diversos bens da indústria química pesada; frear a usina de Volta
Redonda - símbolo de nossa industrialização com 2 milhões de toneladas de aço
anuais; frear FNM – Fábrica Nacional de Motores – que iniciou a produção de caminhões
pesados, produzidos aqui! Frear a ampliação da Usina de Paulo Afonso, de suma importância
para o nordeste. Não foi difícil encontrar esse candidato!
‘Eu tenho verdadeiro pavor de todo empreendimento industrial que o
estado dirija’. Com estas palavras o governador paulista Jânio Quadros, na
leitura do autor, dava início a uma das maiores ofensivas jornalísticas contra
o Estatismo e a Petrobrás.
‘O leitor poderá pensar’, assevera o autor, 'mas será que uma série de entrevistas terá ressonância que o autor quer atribuir ou ele está exagerando? A realidade é que não era uma campanha isolada e restrita a um só jornal, mas uma campanha de âmbito nacional, precisa e perfeitamente planejada’. Eram matérias pagas reproduzidas em diversos jornais brasileiros ligado aos trustes contra o Estatismo e a Petrobrás.
‘O leitor poderá pensar’, assevera o autor, 'mas será que uma série de entrevistas terá ressonância que o autor quer atribuir ou ele está exagerando? A realidade é que não era uma campanha isolada e restrita a um só jornal, mas uma campanha de âmbito nacional, precisa e perfeitamente planejada’. Eram matérias pagas reproduzidas em diversos jornais brasileiros ligado aos trustes contra o Estatismo e a Petrobrás.
Solicitação de transcrição
da entrevista de Otávio de Bulhões no jornal A Noite (27.06.57) ‘Os que
pedem o monopólio estatal não confiam na força do Estado através do governo’,
paga pela Cia de Carris, Luz e Força Société Anonyme Du Gaz.
Conclusões do autor:
1 – A campanha anti-estatista tinha a finalidade
precípua de atingir a Petrobrás;
2 – Esta campanha era dirigida e financiada pelas
companhias estrangeiras, mancomunadas com jornais nacionais, em defesa de seus incontestáveis
interesses econômicos;
3 – A escolha de Jânio Quadros, ‘um dos grandes
canhões contra a Petrobrás’, dava ao referido candidato, incontestavelmente, em
virtude de sua posição política, a liderança do entreguismo no Brasil; e,
finalmente,
4 – O apoio dado em entrevistas posteriores por
Eugênio Gudin, Otávio de Bulhões, e outros, mostram que a ‘trouppe’ ainda é a mesma do senhor Café Filho.
Algumas supostas declarações do candidato Jânio da
Silva Quadros sobre a Petrobrás, o Nacionalismo e Estatismo brasileiros que,
segundo o autor, não foram desmentidas:
‘Esse
nacionalismo, e principalmente, esse estatismo é uma grande farsa e uma grande
chantagem’.
‘Esse negócio
de Petrobrás no século da energia atômica, vai nos levar ao mesmo estado da
Inglaterra com o carvão’.
‘Disse o Sr. Jânio Quadros que se fosse
presidente da república acabaria com a Petrobrás’, Correio da manhã,
17/agosto/1958.
‘Um bom amigo
do Brasil’, Jânio Quadros em entrevista à ‘United Press’ reproduzida em
4/junho/1959 pelos jornais brasileiros Correio da manhã e Diário de Notícias.
Jânio na entrevista fazia referencia a Nelson Rockfeller, magnata da Standart
Oil.
No ano de 1958, foi instituída uma Comissão
Parlamentar de Inquérito para apurar as atividades políticas das multinacionais
do petróleo Shell e Esso, durante os anos de 1956 e 1957, que conseguiu revelar
a promiscuidade entre elas e os grandes jornalões brasileiros do Rio e de São
Paulo. Em sua oitiva pela CPI o senhor Armando de Moraes Sarmento, presidente
da Mc Cann Erickson, agência americana de publicidade que atuava no Brasil, revelou
o valor das contas de campanhas publicitárias distribuídas aos jornais
brasileiros, referente ao ano de 1957.
Observem que o valor
era repassado em valor unitário por exemplar, onde a companhia estrangeira desembolsava
quatro vezes mais do que o leitor comum pagava na banca de
jornal. E com um detalhe, os números não levaram em conta o lucro do jornaleiro
que era de 30%. Qual seria o interesse de um investimento nesses moldes, e não, o convencional que é um espaço vendido em centímetros
quadrado, onde os valores variam em conformidade com o espaço onde o anúncio e
veiculado? Era o interesse da opinião da multinacional prevalecendo sobre os
interesses da Petrobras, consequentemente, da sociedade brasileira, a
verdadeira proprietária da Petrobrás.
As matérias veiculadas sempre criticando a intervenção
estatal nos setores básicos da economia; defendendo intransigentemente a livre
iniciativa; a participação de capital estrangeiro como alavanca para o
desenvolvimento do país; condicionando o nosso subdesenvolvimento a questões de
austeridade e moralidade, desviando a opinião pública das verdadeiras razões do
atraso, a submissão a um modelo imperialista; o constante alerta ao perigo da
infiltração comunista, ou a expansão do comunismo-nacionalista, e, defensores intransigentes
da candidatura de Jânio Quadros.
A análise se refere somente a uma multinacional das 1477 que atuavam no Brasil.
A análise se refere somente a uma multinacional das 1477 que atuavam no Brasil.
Qualquer semelhança entre o que é relatado por José de
Bálsamo, na década de 1950 e 1960 do século passado, em Jânio e a Petrobrás e o
atualmente pelos jornalistas Aloysio Biondi em Brasil Privatizado, Amaury
Ribeiro em A Privataria Tucana e Palmério Dória em O Príncipe da Privataria,
não se trata de mera coincidência. Não! São ações levadas a efeito por inescrupulosos
apátridas que, mancomunados com os interesses estrangeiros se aliam à grande
mídia para vender ou doar o Brasil.
Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)
13 de outubro de 2013
Janis Joplin, um recorte biográfico
Faltavam 88 dias para terminar o
ano de 1970, no século passado. Quatro de outubro. Data que calava a voz inigualável da menina que havia estado no Brasil alguns meses
antes, fevereiro, na tentativa de livrar-se do vício da heroína. Menina que foi
expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina; que por sua maneira
agressiva de vestir foi barrada por um segurança de uma escola de samba; que
fez topless na praia de Copacabana;
que se entregou ao roqueiro Serguei, que ainda hoje falto de caráter se promove
utilizando-se esse encontro, pior, o faz com estampas em camisetas com frases
chulas; menina que bebeu e cantou num bordel brasileiro; que não apareceu no estúdio
para gravar. Uma overdose de heroína combinada com o efeito do álcool a calou
para sempre. E com ela os temas de perda e de dor que marcaram canções como The
Rose, que emprestou o nome ao filme baseado em sua vida. Antes dela Robert
Johnson, Brian Jones, Jimi Hendrix, e depois, Jim Morrison, Kurt Cobain e Emy
Winehouse. Todos aos 27 anos de idade. Todos com a mesma causa mortis: degradação biológica pela combinação de álcool e
droga.
Janis Joplin - The Rose
Janis Lyn Joplin nasceu em 19 de
janeiro de 1943, em Port Arthur, uma pequena cidade do Texas, EUA. Filha de um
funcionário da Texaco e de uma secretária de uma faculdade local. Tinha dois
irmãos, Laura e Michael, e desde cedo requereu mais atenção dos pais. Gostava
de poesia e pintura, amava a música. Como quase toda cantora norte-americana
iniciou carreira no coral de uma igreja. Uma adolescência quieta, introspectiva e
solitária. Assim que as espinhas apareceram juntamente com a indiscrição da
balança a rebeldia se fez presente, e com ela, roupas extravagantes bem
diferentes do uso da época, indo desde camisas masculinas a curtíssimas
minissaias, o que lhe fez vítima de bullling na escola. Além de rejeitada pelos
colegas era chamada de porca, estranha, esquisita, promíscua. Assim que passou
a cantar nos bares de sua cidade encarnou um personagem de menina durona,
agressiva, encrenqueira, que gostava de beber e zoar as pessoas. Iniciou alguns
cursos de graduação, porém, nenhum concluído. De crooner do Walter Creek Boys, trio formado na cidade de Austin,
em 1963, partiu para a cidade de São Francisco. Ali, a extravagância chegou ao
extremo. Bebia compulsivamente e usava drogas pesadas como a heroína. Vida desregrada e autodestrutiva. Chegou a ser internada. Em 1966 passou a
integrar o grupo Big Brother &
Halding Company, destacando-se no ano seguinte no festival de Monterrey
como melhor intérprete na opinião do público com a música Ball and Chain, que lhe valeu as capas das revistas Time e Newsweek. Em setembro de 1970, a primeira mulher a quebrar
paradigmas e fazer sucesso no mundo masculino do rock foi vista pela última vez
em público, em sua cidade natal, quando da comemoração do décimo ano de
formatura de sua turma do colégio. Ana Beatriz Barbosa Silva, faz uma referência a esta aparição em seu livro 'Corações Descontrolados - ciúmes, raiva, impulsividade: o jeito borderline de ser' - 'Ela estava ansiosa por aquele momento, para mostrar às pessoas que tanto a hostilizaram que ela era um grande sucesso'.
Janis Joplin em Monterrey - Ball and Chain
‘Porque eu não canto como as outras cantoras? Não sei, talvez porque não
fique na superfície das melodias, porque eu entre na música, eu canto com a
minha alma, com o meu corpo, com o meu sexo... Eu canto toda!’ declarou
certa feita.
Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)
7 de outubro de 2013
OS GORILAS, O POVO E A REFORMA AGRÁRIA, Gondin da Fonseca. São Paulo: Editora Fulgor. 1963
Manifesto dos bispos do Brasil
Escrito em 1963, quando a sociedade brasileira discutia as ‘Reformas de Base’ propostas pelo presidente João Melchior Marques Goulart[i]. Dentre elas a reforma agrária. O cenário foi a inauguração da XXIX Exposição e Feira Agropecuária e a V Exposição Nacional de gado Zebu, em três de maio daquele ano, na cidade mineira de Uberaba, promovidas pela Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, posteriormente, Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, mais conhecida como ABCZ, à época, presidida por Antônio José Loureiro Borges.
Escrito em 1963, quando a sociedade brasileira discutia as ‘Reformas de Base’ propostas pelo presidente João Melchior Marques Goulart[i]. Dentre elas a reforma agrária. O cenário foi a inauguração da XXIX Exposição e Feira Agropecuária e a V Exposição Nacional de gado Zebu, em três de maio daquele ano, na cidade mineira de Uberaba, promovidas pela Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, posteriormente, Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, mais conhecida como ABCZ, à época, presidida por Antônio José Loureiro Borges.
O autor dá ênfase na capa do
livro ao Manifesto dos Bispos do Brasil, publicado em primeiro de maio daquele
ano, sob o guarda-chuva da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil. Todavia,
o discurso do presidente Antônio José Loureiro Borges expressando o pensamento
dos produtores rurais exigiu de Jango um pronunciamento. Uma posição pública sobre a proposta de reforma agrária levada a efeito pelo seu governo. E o
presidente a deu. E de improviso. O presidente não levava discurso preparado.
Ali, estava a expressão dos proprietários fazendeiros de um lado, e a do
presidente reformista de outro. São duas falas de importância histórica para o
entendimento do pensamento sobre a reforma agrária ao longo da história contemporânea brasileira, daí, a proposição de
transcrevê-las.
Outros documentos como o
Manifesto dos Bispos do Brasil, a mensagem do presidente da república enviando
à Câmara dos Deputados o Anteprojeto de reforma agrária e o Anteprojeto em si, também foram adensados pelo autor, e que, dado suas importâncias históricas,
estaremos publicando-os oportunamente.
Alguns recortes sobre a questão
agrária publicados no Jornal do Brasil naquele
ano:
12 de maio de 1963 – Em Minas não se sente a pressão dos campos
em favor da reforma agrária, porque o problema atingiu, lá, proporções mais
graves que em outros Estados: de 5 em 5 anos 1.200.000 cidadãos mineiros
emigram para outras regiões, pela impossibilidade de penetrar, viver e
trabalhar na estrutura agrária de sua terra, e mais fechada e desumana do país.
19 de maio de 1963 – Ao longo das três rodovias que construí no
meu governo, criarei cidades que serão núcleos agrícolas. Na Brasília – Acre,
em cada 80 quilômetros nascerá uma cidade, um núcleo ocupado por cerca de 16
mil habitantes. Na Brasília – Fortaleza e na Brasília-Belém, em cada quarenta
quilômetros se fará a mesma coisa. Assim, como em círculos concêntricos,
povoaremos o Brasil, fazendo as suas terras inexploradas produzirem. Ao mesmo
tempo daremos assistência a lavradores, aumentando a rede de silos e armazéns e
fornecendo transportes e adubos a preços acessíveis. Construirei, assim, em
dois anos, 160 cidades, ao longo daquelas rodovias[ii].
[i]
Conhecido como Jango.
[ii]
Juscelino Kubitschek de Oliveira em campanha presidencial às eleições de 1965. Duas
observações: a primeira de que o ex-presidente era dado como favorito nessas
eleições, e, segundo, se no seu primeiro mandato privilegiou a industrialização
urbana, neste segundo, o foco de seu projeto de governo era campo.
Trecho do discurso do presidente
da Sociedade Rural do Triangulo Mineiro, Antonio José Loureiro Borges na
inauguração da XXIX Exposição e Freira Agropecuária e a V Exposição Nacional de
Gado Zebu, na cidade de Uberaba, em 1963.
Esta preocupação e esta intranquilidade se devem ao projeto
de reforma agrária, ora em discussão no Poder Legislativo da República.
Esperamos confiantes e certos, hoje, em Uberaba, um
pronunciamento de V. Excia., senhor Presidente, que também é homem do campo, um
pronunciamento de conforto e apoio para a solução do atual problema.
Afirmamos a V. Excia. Que, se este problema aflitivo e
angustiante para a classe rural for equacionado de forma satisfatória, mercê de
Deus, caminhemos livres, propiciando à Nação uma ajuda eficaz e positiva.
No momento em que os espíritos mais exacerbados procuram
destruir nossa tradição democrática, há necessidade de que os dirigentes
responsáveis pelos destinos do Brasil fortaleçam nossas convicções no regime,
que representa a única forma de vida livre.
É para nós, imperativo de consciência, a defesa das legítimas
e justas reivindicações do povo e das classes que o compõem, desde que seja
resguardada a liberdade, que é indispensável para a sobrevivência do regime
democrático.
A discutida reforma agrária, através da reforma
Constitucional, com relação aos artigos 141, parágrafo 16, e artigo 147[1],
dizendo indispensável sua alteração para a aplicação de uma reforma agrária
cujo conteúdo não está ao alcance da maioria, que não a entende, e nem sabe
fazê-la aspiração autêntica, é matéria perigosa e arma de natureza
eminentemente política.
[1]
Os artigos 141, § 16 e 147 garantiam o direito à propriedade, e, em caso de
desapropriação por interesse social, como a reforma agrária, o pagamento
previamente depositado em dinheiro. A proposta de Jango era de que esse
pagamento fosse feito em longo prazo e através de Títulos Especiais da Dívida
Pública, pago pelo valor nominal declarado pelo proprietário ao imposto de
renda; ou, o utilizado para recolhimento de impostos, e, finalmente, o
estabelecido em avaliação judicial.
Discurso do presidente João
Melchior Marques Goulart na inauguração da XXIX Exposição e Feira Agropecuária
e a V Exposição Nacional de Gado Zebuíno, na cidade de Uberaba – MG, no dia
três de maio de 1963, às 10 horas.
Realmente, Uberaba pode considerar-se a legítima capital do
Zebu de nosso País. Este município tem demonstrado o quanto deve o Brasil ao
espírito abnegado do estado de Minas Gerais, Estado de tradições épicas desde
os tempos do ouro e das bandeiras.
Permitam-me que evoque neste momento a figura de um grande
brasileiro que tanto prestigiou outrora esta exposição e que foi um dos que
mais lutaram, em nosso País, pelo desenvolvimento da pecuária, especialmente da
pecuária de Minas, orgulho de nossa Pátria. Permitam-me os uberabenses que,
nesta oportunidade, recorde o grande presidente Getúlio Vargas, estadista
singular que nunca vos faltou com o seu apoio, com o seu estímulo – e que
jamais deixou de amparar os pecuaristas de Minas, especialmente no que concerne
à criação do Zebu, e isso numa hora em que poucos acreditavam no seu êxito.
Ouvi, com o maior respeito, as palavras do presidente da
Associação dos Criadores deste município e do Triangulo Mineiro. Acreditai
pecuaristas de Minas Gerais, que o governo federal, interessando-se, como agora
o faz, por esta exposição, outro intento não tem senão o de prestigiar a classe
rural, um dos fundamentos da economia de nossa Pátria. Anima-o tão somente o
propósito de voz trazer uma palavra de estímulo, de fé e de confiança,
homenagear aqueles que se dedicam à pecuária, atividade rural das mais antigas,
das mais úteis e das mais patrióticas do Brasil.
Eu faltaria a um dever de lealdade a Minas – a Minas e a este
País – se aqui respeitosamente, mas com franqueza não manifestasse minha
discordância, neste instante, dos conceitos emitidos pelo jovem e digno
presidente desta associação, quanto ao problema da reforma agrária. Deixarei
bem claro o pensamento do governo federal sobre tema tão discutido. Não
desejamos expropriar terras arbitrariamente, de uns, para entregá-las a outros;
não queremos transportar para um plano de riquezas uma classe, esmagando outra
que, com trabalho e sacrifício, construiu suado patrimônio. O que desejemos é,
exatamente, fortalecer o regime democrático em que vivemos e que havemos de defender
e preservar.
Um regime democrático, porém, não se fortalece com palavras e
discursos. Fortalece-se transformando o estado num instrumento de defesa do
povo, de defesa de suas justas reivindicações. Não é sistema estático, mas
dinâmico. Há de marchar ao encontro dos anseios populares, atendendo às suas
legítimas aspirações e constituindo, então, através desse dinamismo, a
verdadeira paz, conseqüente da justiça social – justiça que todos desejamos e
que nos empenhamos em conquistar, mas que jamais obteremos eternizando o
privilégio de uns poucos à custa da miséria e das dificuldades da maioria.
Sinto-me perfeitamente à vontade para falar deste problema
porque nasci camponês, sou homem identificado com a terra. Identificado de fato
e não através de negócios realizados longe dela. Aos 15 anos já labutava lado a
lado dos trabalhadores rurais e de meu pai, em todos os serviços próprios de
uma fazenda. Sinto-me à vontade para dizer que a reforma agrária se há de
processar em bases humanas e cristãs – mas se há de processar realmente para
tranqüilidade da família brasileira, para que os trabalhadores rurais possam
participar das riquezas da sua Pátria; para que os pobres tenham oportunidade
de sair da pobreza; para que os servos da terra consigam um dia, afinal, ser
donos dela. Hão de comprá-la, de pagá-la com o seu esforço. Ninguém pode negar
ao trabalhador rural esse direito elementar de ter também o seu palmo de chão
para produzir. Não se compreende que, num País da vastidão continental do
Brasil, um pobre que se cansa dia após dia vergado sobre a terra não tenha,
jamais, o direito de lhe chamar sua.
Eis a tese que defendo. Reafirmo que de nada adianta
pretender uma reforma agrária sem modificar o texto constitucional. Iludiríamos
o povo se lhe acenássemos com a possibilidade de fazê-la sem alterar a
Constituição. Citarei apenas uma cifra e gravem-na bem no espírito os homens do
interior. Cifra bem significativa: para expropriar apenas 10% das terras
agricultáveis da nossa Pátria, precisaríamos de mais de dois trilhões de
cruzeiros, importância que o governo, indiscutivelmente, não poderia pagar. Se
o tentasse fazer seria à custa de uma inflação aterradora, a cujo impacto não
resistiria nem mesmo as instituições democrática que defendemos.
Sabem os pecuaristas de Minas Gerais que qualquer reforma
agrária obedecerá a um critério prioritário quanto às desapropriações. Nenhuma
lei pode pretender desapropriar terras que estejam produzindo em termos
econômicos, que estejam prestando benefício ao País. Neste caso, a propriedade
deve ser preservada, os direitos de senhorio resguardados. Mas a terra há de
ter, precipuamente, uma finalidade social. Não pode favorecer, somente, os que
a possuem. Comporta, intrinsecamente, um sentido social, pois dela depende o
bem estar da coletividade. Não há de beneficiar apenas os que por trabalho, por
herança, por sorte ou por privilégio a possuem.
Ficai tranquilos jamais concordaríamos com a expropriação
pura e simples de terras. Jamais concordaríamos com o critério arbitrário de
tomar a terra de quem a trabalhou para, simplesmente, a entregar a quem deseje
trabalhá-la. O que pretendemos é que as terras improdutivas se integrem numa
finalidade social. As grandes áreas localizadas junto aos centros de consumo
precisam estar a serviço da coletividade e não, apenas, a serviço individual.
A reforma a que visamos, a reforma por que há tantos anos
batemos, há de contribuir para que todo o povo brasileiro participe da riqueza
nacional. Se assim não for, de que nos adiantará viver neste vasto território,
território imenso, com áreas das mais férteis do mundo? De nada, meus
patrícios, desde que o povo as não usufrua, desde que o povo delas se veja
excluído, sentindo-se no meio em que trabalha um pária, um marginalizado.
Respeitemos o direito do proprietário, mas que a propriedade adquira um alto
sentido social, isto é, que preste serviço ao País, como instrumento atuante e
democrático.
Falamos em pagamento em longo prazo porque o Brasil não teria
condições de comprar terras pelo seu preço atual, liquidando os débitos à vista
e depositando, previamente, as importâncias respectivas.
Ninguém deseja toma chão cultivado pelos seus donos. Esse
será respeitado. O que não se pode respeitar é o latifúndio improdutivo, as
verdadeiras sesmarias dos que vivem pensando em valorizações sem meditar que
toda valorização, efetivamente, decorre de um processo social de que os
camponeses participam. Que os ricos cedam, a tais valores humildes e anônimos,
um pouco do que na verdade lhes cabe. Não cedam a partidos políticos, não cedam
ao presidente João Goulart. Cedam ao povo brasileiro, à própria Pátria, para
que a aristocracia agrícola se transforme, pacificamente, em democracia do
campo.
Esse é o nosso pensamento. Nosso e não de partidos
extremistas, estranhos à concepção cristã do povo brasileiro. Não defendemos
ideologias contrárias ao sentimento cristão do nosso povo – sentimento que é
nosso, que é vosso, terra sagrada de Tiradentes, que é o de todo o Brasil.
Quem hoje deseja a reforma agrária não são os partidos de
esquerda, somente: é a própria Igreja Católica, através da voz mais autorizada
do mundo – que é o chefe espiritual de todos nós, a voz do santo Padre, o Papa
João XXIII.
Que o seu apelo foi ouvido, foi sentido aqui no Brasil,
testemunharam-no ainda ontem os bispos brasileiros em manifesto à Pátria,
pedindo, também, a reforma agrária que há tanto tempo vimos reivindicando.
Não são, portanto, os partidos políticos apenas: são os
bispos brasileiros; são os homens que chefiam espiritualmente o nosso povo; são
as massas brasileiras que acreditam na sua Igreja. São altos dignitários que,
com responsabilidade, vêm dizer publicamente que a reforma agrária é
indispensável à paz e à justiça social.
(palmas prolongadas)
Obrigado! Obrigado! Agradeço profundamente a manifestação de
apreço que generosamente me dais e que sempre recebi deste bravo povo montanhês
– povo que soube sela com sangue a independência do Brasil. Que o presidente da
Associação Rural desta cidade e do Triângulo, e todos os ruralistas mineiros,
recebam as minhas palavras como tributo e homenagem.
Eu não poderia vir aqui, Minas Gerais, sem traduzir outro
pensamento que não fosse o do governo, expresso na mensagem que já tive a honra
de enviar ao Congresso Nacional.
A reforma agrária já está encaminhada. O projeto que tínhamos
o dever de enviar já se encontra no Congresso para que ele, na sua alta
soberania, e com a sua independência, o examine à luz da realidade
brasileira. Para que o examine e,
sensível como é as reivindicações das classes populares, decida depois,
conscientemente, com a responsabilidade de quem está resolvendo um dos
problemas mais graves do Brasil atual.
Agradeço mais uma vez às Associações Rurais de Minas.
Inaugurando esta Exposição, verifico, de visu,
a pujança extraordinária da pecuária mineira, que o governo deseja preservar e
desenvolver.
Ainda há poucos dias, há três dias, determinei à Carteira
Agrícola do Banco do Brasil que elevasse até 42 milhões de cruzeiros o teto
para financiamento à pecuária e à agricultura. Cumpre-nos auxiliar os homens
que vivem da terra, que a lavram, as semeiam e a fazem produzir.
Estes lavradores, grande ou pequenos fazendeiros, são em
geral homens sensíveis às necessidades dos que com eles colaboram de sol a sol,
ajudando-os a construir a grandeza de suas propriedades. Poderão estar tranquilos – repito – pois nenhuma reforma agrária atingirá propriedades
produtivas que preencham a sua finalidade social.
Este pensamento eu o pero deixar expresso, Minas Gerais.
Expresso com meridiana clareza. E quero, outrossim, congratular-me com o
eminente governador deste Estado, que há pouco declarava apoiar uma alteração
do texto constitucional que tornasse exequível uma reforma agrária capaz de
atender realmente aos interesses vitais da nação.
Eminente governador Magalhães Pinto, os meus agradecimentos.
Cidadãos de Uberaba, proprietários de terras, trabalhadores agrários,
posseiros, modestos camponeses que ganhais o pão amargo e escasso com o suor do
vosso rosto, aceitai as homenagens e saudações do governo federal. Povo
generoso e bravo, jovens estudantes, vanguarda moça dessa cidade, os meus
agradecimentos pela acolhida que me dispensais.
Ouvi emocionado, quando cheguei a esta Exposição, a palavra
de um estudante, como porta voz de seus companheiros, pedindo a reforma
agrária. As grandes reformas, as reformas de estrutura, de base, as reformas
recamadas pelas multidões sempre se fazem e sempre se fizeram muito mais com o
apoio delas, dos estudantes e dos trabalhadores, do que por iniciativa e
decisão do presidente da república.
É necessário que o povo tenha consciência desta grande
verdade histórica. Ele precisa participar de todas as riquezas do País e só
participará quando vivificarmos o regime, transformando-o numa democracia, com
alma atuante, dinâmica, que converta o Brasil, de paraíso de minorias
privilegiadas, num País de trabalho honesto onde a todos se assegurem todas as
oportunidades de progresso, todos os direitos humanos. Num País cristão, com fé
e confiança em seu destino. Num Brasil, onde impere a compreensão, onde reine a
fraternidade, onde os que são muito ricos se resignem a ser talvez menos ricos,
mas os pobres, com a ajuda de Deus, se sintam menos miseráveis.
Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)
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