21 de setembro de 2013

BRIZOLA, Carrion Jr. - Porto Alegre/RS: L&PM editores, 2ª edição, 1989. 73 páginas.

Momentos de decisão

Lançado no ano de 1989, em que Leonel Brizola concorria à presidência da república. Contextualiza a ação política e administrativa dentro das questões nacionais, como a Campanha da Legalidade, que garantiu a posse do constitucional do presidente João Goulart, em 1961; sua atuação legislativa e de líder político-partidário e informações sobre os dois governos estaduais que exerceu o primeiro no Rio Grande do Sul e o segundo no Rio de Janeiro. 

Uma passagem define bem o personagem central: “A revolução de 1923, às vésperas da qual nasceu Brizola, foi uma das mais sangrentas da História do Rio Grande, marcada toda ela por guerras de fronteira e revoluções internas. O agricultor e tropeiro José Brizola, pai de quatro filhos e uma filha, fazia parte do exército de Leonel Rocha, partidário da Aliança Libertadora, contra a reeleição do governador gaúcho Borges de Medeiros. Foi só em dezembro de 1923 que foi firmada a paz, com a assinatura do Tratado de Pedras Altas, pondo fim a uma revolução que se iniciara em janeiro e ensangüentara o Rio Grande do Sul. Seguiu-se a desmobilização, devolvendo aos seus lares aqueles que haviam sobrevivido à luta, ainda que persistisse um clima de guerra, com muitas vinganças. Foi neste cenário que aquele agricultor pobre foi arrancado de sua casa, e aprisionado por uma coluna governista e morto no caminho da sede do destacamento. Seu último pedido foi a um tropeiro amigo, de nome Otávio, que cuidasse de seu filho mais novo que, nos braços da mãe Oniva, ainda seguira a coluna por mais de légua. O guri ia ter o nome de Itagiba de Moura Brizola, mas depois que sua irmã Francisca o encontrou brandindo uma espada de madeira e dizendo “eu sou Leonel Rocha”, seu nome terminou sendo Leonel de Moura Brizola.


Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)

17 de setembro de 2013

A PRIVATARIA TUCANA, Amaury Ribeiro Jr. Geração Editorial, São Paulo, 2011.

O livro é “uma grande reportagem que vai devassar os subterrâneos da privatização realizada no Brasil sob o governo Fernando Henrique Cardoso”. É “resultado de uma busca incansável do jornalista Amaury Ribeiro Jr. - um dos mais importantes e premiados repórteres investigativos do país, com passagens por IstoÉ, O globo e Correio Brasiliense, entre outras redações – o livro registra as relações históricas de altos próceres do tucanato com a realização de depósitos e a abertura de empresas de fachada no exterior. Devota-se particularmente a perscrutar as atividades do clã do ex-governador paulista José Serra nesse vai e vem entre o Brasil e os paraísos caribenhos, continua o editor.

O jornalismo investigativo é assim: às vezes se dá um tiro em um beija flor e acaba acertando um elefante. Baleado por uma reportagem levada a efeito na região do Entorno de Brasília relacionada ao tráfico de drogas e assassinatos de jovens, Amaury Ribeiro Jr., foi deslocado dentro da mesma empresa para a cidade de Belo Horizonte, onde recebeu como pauta a investigação sobre a “arapongagem tucana” sobre o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, em suas viagens ao Rio de Janeiro, onde, a grande imprensa vai além da conta com ataques como esse: “Pó pará, governador?”, numa alusão de que o governador mineiro usava cocaína. Dessa investigação, juntando-se a documentos catalogados sobre a privatização neoliberal tucana, Amaury Ribeiro Jr., desnuda em 346 páginas, o que foi, no Brasil, os 8 anos FFHHCC, onde um de seus articuladores mor, o ex-governador de São Paulo, hoje no ostracismo, José Serra.

Assevera o ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em artigo publicado no site consultor jurídico, 70% do dinheiro lavado no país vem da corrupção e não mais do tráfico internacional de entorpecentes e do contrabando de armas e munição, com o ocorria antigamente”. Atentem para as ações tucanas antes, durante e depois do processo de privatização das principais empresas brasileira, que o leitor entenderá a indignação de sua excelência, o ministro Dipp.

Um livro que sepulta de vez por toda qualquer pretensão política do ex-governador José Serra. Os que a ele não tiveram acesso através da leitura, por certo o terão no horário político obrigatório, ou por inferência de um opositor em um debate político caso o ex-deputado, ex-senador, ex-ministro, ex-prefeito opte por uma eleição.

Poderia aqui evocar o poder judiciário, mas o ocorrido na mais Alta Corte do país nesses últimos dias fez órfão o povo brasileiro. Resta o quê? Acreditar na sua gente. Por isso, é de fundamental importância que A PRIVATARIA TUCANA seja lido, analisado e se possível, relido. Países co-irmãos da América Latina responderam à altura aos desmandos semelhantes ocorridos em seus países por seus políticos.

* Leiam também 'O príncipe da privataria' de Palmério Dória, Geração Editora, São Paulo, 2013.

Cascatinha & Inhana, um recorte biográfico


Como deve ser a experiência de gravar uma música em 1953 e vender 300 mil cópias? Mais ainda, em 1990 esse registro ultrapassar as 3 milhões de cópias? Assim aconteceu com a guarânia paraguaia ‘Índia’, composta por H. Gimenez, numa versão para o português de José Fortuna e Pinheirinho, na voz inigualável de Inhana que, com o marido Cascatinha, formou a dupla Cascatinha e Inhana.

Numa apresentação solo no programa Viola, minha Viola apresentado pela Inezita Barroso na TV Cultura, Francisco dos Santos, o Cascatinha, revelou que o seu nome artístico foi uma herança da infância vivida na Fazenda Cascata, que presenteava as crianças com uma cachoeira que tomava emprestado o nome da propriedade no diminutivo, Cachoeira Cascatinha, e quanto a sua esposa Ana Eufrosina da Silva, ‘inhá’, uma forma de tratamento respeitoso às mulheres, daí evoluindo para ‘Inhana’. Ambos do interior do estado de São Paulo, ele de Araraquara, 1919, e ela de Araras, 1923.


India - Cascatinha & Inhana


Além de cantar canções e valsas românticas, Francisco dos Santos tocava violão e bateria. Certa feita passou pela cidade um circo, Nova Iorque, que trazia em seu elenco o cantor Chopp que, numa ‘canja’ entre eles, perceberam que as vozes acasalavam muito bem, o que os levou à formação da dupla, Chopp & Cascatinha, aliás, o apelido de infância caiu bem para a dupla, uma vez que ‘Cascatinha’ era o nome de uma renomada cerveja à época. Enquanto isso, Ana Eufrosina se apresentava como ‘cronner’ em um ‘conjunto musical’ formado pelos seus irmãos. E foi numa dessas andanças da dupla Chopp & Cascatinha com os circos pelo interior do Estado de São Paulo que Francisco e Ana se conheceram e casaram em 1941, formando o Trio Esperança com Chopp, Cascatinha & Inhana.

 No Rio de Janeiro o Trio Esperança fez relativo sucesso com apresentações nos programas de César Ladeira (Rádio Mayrink Veiga), Manoel Barcelos e o famoso ‘Papel Carbono’ de Renato Murce, ambos na Rádio Nacional. Chegaram a ser premiados por estes programas.

Em 1942, o Trio Esperança se desfaz com a saída de Chopp, o que levou a então dupla Cascatinha & Inhana a se ingressarem no Circo Estrêla D’Alva, fazendo as praças dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e, posteriormente, fixando em solo paulista por cinco anos no Circo Imperial.

Em 1942, o Trio Esperança se desfaz com a saída de Chopp, o que levou a então dupla Cascatinha & Inhana a se ingressarem no Circo Estrêla D’Alva, fazendo as praças dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e, posteriormente, fixando em solo paulista por cinco anos no Circo Imperial.

No ano de 1947, a dupla se apresentou na Bauru Rádio Clube, nos programas ‘Luar do Sertão’ e ‘Cirquinho do Benjamim’. 1948, na Rádio América, na cidade de São Paulo, e, 1950, contratada pela Rádio Record, ali permanecendo por 12 anos. Em 1951, estreia no disco pela Todamérica através de uma versão da canção de Sebastian Yradier, ‘La Paloma’, 1863, após uma visita do compositor a Cuba. Um sucesso tamanho que popularizou Havana para o mundo.

Em 1952 aconteceu! A dupla gravou as guarânias ‘India’ e ‘Meu primeiro amor’, ambas paraguaias. Nos anos de 1951 e 1953 recebeu o Prêmio Roquette Pinto, entregue aos melhores profissionais do rádio e da televisão brasileira. Criado em 1950, em suas 26 edições foi comparado em importância ao ‘Oscar’ americano. De longe a melhor premiação brasileira neste viés.

Em 1953 a dupla consagrou-se com a gravação de ‘mulher rendeira’, folclore nordestino com o arranjo de João de Barro, que lhe rendeu a ‘Medalha de Ouro’ da Revista Equipe, no ano seguinte, 1954. A partir de então a dupla focou em polcas e guarânias paraguaias, boleros mexicanos, composições de Zé Fortuna, Mario Zan até que em 1959, outro estrondo, ‘Colcha de retalhos’, de Raul Torres. Ainda líder nas paradas de sucesso com ‘Índia, Meu primeiro amor, Mulher rendeira, Flor serrana, Assuncion, Queira-me muito, Recordações de Ipacaray, Colcha de retalhos’ explode com ‘Flor do cafezal’, de Carlos Paraná. A essas alturas, Cascatinha exercia o cargo de diretor artístico da Todamérica.

A história de Francisco dos Santos, o ‘cascatinha’, e Ana Eufrosina na Silva, a ‘Inhana’, no escrever de um de seus biógrafos é matéria para virar música, poesia, filme, documentário. “Ele estava em Araras, no interior paulista, se apresentando com o Circo Nova Iorque, e ela foi assisti-lo. Ela tinha 17 anos, estava noiva, mas seu destino estava escrito. ‘Quando vi aquele mulato tocando violão, me apaixonei’, contou ela. O violeiro e a moreninha se casaram cinco meses depois, no dia 23 de setembro de 1941. Cantaram nos picadeiros de centenas de circos por todo o país, gravaram 54 discos em 78 rpm e 30 Lps. Venderam milhares de discos numa época em que vitrola era artigo de luxo. Cantaram o Brasil mulato, o Brasil caboclo, o Brasil fronteiriço a outros sons e culturas, traduziram a linguagem rítmica e poética de um país que nos anos 50 vivia um acelerado processo de urbanização”.

Na entrada da primavera de 1981 estariam completando 40 anos de casados, fruto de um namoro e noivado de cinco meses. Era véspera do dia dos namorados, 11 de junho. Inhana encontrava-se num salão de beleza se preparando para comemorar o dia seguinte junto de seu mulato, como ela o chamava carinhosamente, quando sentiu mal. Não teve jeito, ‘Mas quanta ilusão! Tudo é solidão, ela já morreu! E a brisa sem dó, apagou no pó, o rastinho seu’. Versos da canção Che Pycasu Mi gravada pela dupla com o nome de Solidão.


Solidão (Che Pykasu mi) - Cascatinha & Inhana


Che Pykasu Mi, uma canção de amor composta na década de 1930, pelo professor, músico, poeta Cecílio Valiente para sua namorada Luisa Carmona, no lugarejo de Ycuá Mbocaya de Yaguarón, no Paraguai.

Che Pykasu Mi (letra em Guarany)

Che pykasu mi reveve vaekué chehegui rehóvo
Oúva ne ange cada pyhare che kéra jopy;
Rohayhúgui ai ajepy’apÿva che ne ra’arôvo,
Michinte jepépa ndaivevuivéi che mba’embyasy
Ne añaitégui ndénte aikóva ko’âicha aikove asy
Jaikóma rire ku juayhu porâme oñondivete;
Resê reveve che rejarei, Che motyre’y
Aico cikorey ndavy’amivéi upete guive. 

Cascatinha após a morte de Inhana tentou a carreira ‘solo’, inclusive na regravação da música Solidão (Che Pukasu mi) numa homenagem a companheira de longa caminhada, ‘Tudo se acabou, nada mais restou neste meu viver. Ela lá no céu e eu andando ao léu sempre a padecer. Espero, porém, que um dia no além, tornarei lhe a ver. Mas isto será só quando eu morrer’. E foi. No dia 14 de março de 1996, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São José do Rio Preto, com cirrose hepática, partiu Francisco dos Santos ao encontro de Ana Eufrosina da Silva, a Inhana.

30 de agosto de 2013

O PRÍNCIPE DA PRIVATARIA, Palmério Dória. Geração Editora. São Paulo. 2013


A história secreta de como o Brasil perdeu seu patrimônio e Fernando Henrique Cardoso ganhou sua reeleição

Em tempos de análise dos recursos interpostos pelos réus da Ação Penal 470 (Mensalão); do rolo compressor da ‘Bancada da Papuda’, na Câmara Federal para absolver da perda de mandato o deputado Federal por Rondônia, Natan Donadon, condenado a 13 anos de 8 meses de prisão em última instância; da expectativa aos próximos capítulos da novela ‘Trensalão’, escândalo de corrupção evolvendo os governos tucanos no Estado de São Paulo e a multinacional Siemens; da indignação com que foram tratados os médicos cubanos em sua chegada ao Brasil pelos ‘amestrados’ e por parte da classe médica brasileira, chega hoje, sexta-feira/30, às livrarias o livro ‘O príncipe da Privataria’, de Palmério Dória. 

'O Príncipe da Privataria", livro-reportagem que trata da articulação e aprovação da emenda constitucional da reeleição, 1997, que beneficiou o então presidente FHC, se apresenta  aos moldes dos livros ‘Privataria Tucana’ e ‘Honoráveis Bandidos’, publicados pela mesma editora.

A ‘bancada do é dando que se recebe’ era composta por 150 parlamentares não pertencentes à base aliada do ‘Príncipe’, que, segundo Dória, foram ‘agraciados’ com um cheque de 200 mil reais cada, antes da aprovação da emenda, que foram trocados por dinheiro após a aprovação, como naquela história hilária de que no interior do Brasil se troca o voto por um par de botinas, dando o esquerdo antes e o direito após a eleição do candidato.

Articulada por Sérgio Motta, o escudeiro do ‘Príncipe’, a manobra tinha claramente interesses paroquiais, os governadores de estado, que foram, na sua maioria, beneficiados com a emenda.

Como avalia o blogueiro Luiz Carlos Azenha (blog Viomundo), “o livro ‘O Príncipe da Privataria’ é, na verdade, um balanço em torno do homem que ‘vendeu o Brasil’”. Uma denúncia menos na linha de Amaury Ribeiro Junior, em ‘Privataria Tucana’, e mais, na de Aluísio Bionde, em ‘O Brasil privatizado’.

* Leiam também 'A privataria tucana' de Amaury Ribeiro Jr, Geração Editora, São Paulo, 2011.

28 de agosto de 2013

Texto outdoor, uma mensagem captada a velocidade da luz


Você que me lê neste momento já se deu conta da existência de uma linguagem visual que nos cerca 24h diuturnamente?

Na correria diária alguma vez você parou e interpretou alguma dessas imagens?

O mundo passa atualmente pelo que especialistas chamam de crise de leitura. Lê-se muito pouco. A imagem vai ocupando o espaço do texto. Uma figura também possibilita a expressão de um pensamento. É um texto sem palavras, mas com sentido. Ou então, o texto outdoor. Aquele bem trabalhado com frases e imagens remetendo a mensagem quase que a velocidade da luz ao consciente do leitor.
   
A imagem acima faz uma crítica a Cuba referenciando à vinda dos médicos daquele país para o programa ‘Mais Médicos’ implementado através de Medida Provisória pela presidente Dilma Rousseff.

A primeira figura que chama a atenção é do revolucionário Ernesto Che Guevara, símbolo da revolução cubana. Em seguida duas frases: trabalhe 100% e Receba 20%, numa alusão ao que tem sido veiculado na mídia do que os médicos cubanos repassarão de seus salários para a Ilha, 80%. Finalmente, a bandeira cubana com uma marca capitalista, o cartão de crédito. Ali se expressa o nome Cuba Card, com o slogan: ‘seu cartão de Fidel-lidade’, numa referência a Fidel Castro.

Médicos cubanos remetem 80% de seus salários para Cuba, e nós? O que remetemos ao governo brasileiro? Você já parou para pensar nisso? Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o brasileiro trabalha de janeiro a maio (cinco meses no ano) para pagar impostos. Sabe o que isso representa? 41,666% de sua renda anual.

Não é objetivo fazer apologia ao regime cubano. Não! Mesmo porque o sonho de uma sociedade justa ficou muito distante. Isto é assunto para outro texto. Precisamos estar atentos a essas propagandas e decifrar o que se encontra embutido nas mensagens. Nem sempre o que reluz é ouro.

18 de agosto de 2013

IMAGINAR A IGREJA, Maria de Lourdes Pintasilgo. Editora Multinova. Lisboa. 1980. 122 páginas.


Reflexões ultrapassadas?

Um livro chama a atenção pelos comentários na mídia, pelo título ou pela beleza da capa. Este me chamou a atenção pelo preço, R$1,00, isto mesmo, um real. Onde? Numa loja dessas que comercializam livros usados, os Sebos. Pode até ser que o título, “Imaginar a Igreja”, após a meteórica visita do papa Francisco ao Brasil tenha também chamado minha atenção.

Abrindo aleatoriamente suas páginas deparo com um questionamento:
1.     Será possível ter fé sem fazer calar o ser inteligente que habita em nós?
2.     Será verdadeiro o ‘acto’ de fé que é condicionado pela estrutura social e ideológica de uma Igreja?
3.   Será compatível a afirmação personalizada da fé com a aceitação de ideias e ‘factos’ que não é possível verificar ‘directamente’?
4.     Em outros termos: será a fé uma ‘alienação’ da liberdade?

Fé (do latim fides = fidelidade) pela absoluta confiança, sem qualquer tipo de prova ou verificação, acompanhada de absoluta abstinência de dúvida, ela é a firme opinião de que algo é verdadeiro. (Rayalties a WikipédiA).

Como contributo para resposta aos questionamentos a explicitação do conceito de liberdade se faz necessário, segundo a autora, para quem a liberdade que a distingue como pessoa não é a capacidade de decidir sobre isto ou aquilo, mas a capacidade de reconhecer, aceitar e situar-se. “Tal liberdade não é um instrumento a utilizar apenas em circunstâncias especiais da vida – ela é o tecido da minha própria existência”.

Jesus é visto na obra como o acontecimento central da vida pessoal e da história coletiva do mundo ocidental. Abriu o caminho de uma vida humana inteiramente realizada, porque Cristo foi um de nós.

Ser Cristão é realizar-se. Ser Igreja é propiciar essa realização coletiva.

A autora ao falar da “Teologia do Laicado” apresenta como marco inicial o célebre livro “Verdadeira e falsa reforma da Igreja”, de Yves Marie-joseph Congar, teólogo dominicano, correspondendo à substituição da ‘Teologia ciência da verdade de Deus’, pela ‘Teologia ciência da revelação constante de Deus’, onde o homem passou a significar alguma coisa nessa revelação divina. “A eles se atribuía a própria continuidade da Redenção iniciada por Jesus Cristo”.

O papa João XXIII ao propor o Concílio Vaticano II usou a palavra ‘aggiornamento’ na tarefa de repensar a Igreja para o mundo. “Daí que não fizesse mais sentido falar em cristãos ‘ao serviço da Igreja’, mas sim, em comunidades de crentes ao serviço do mundo”. O progresso técnico alcançado durante e após a II Grande Guerra Mundial elaborou uma nova Teologia, a ‘Teologia das realidades terrestres’. “O lugar da responsabilidade era obviamente o mundo na significação que adquiria à luz de uma nova teologia”. E hoje, a teologia em pauta é a ‘Teologia da Libertação’, embora o papa Francisco tenha evitado mencioná-la. Aliás, substituiu a expressão “pelos pobres” para “dos pobres”.

Finalmente, a Teologia Política. “É uma teologia de homens em comunidade. Acaba de vez com os ‘iluminados’ de quem nenhuma luz irradia; diz aos ‘individualistas’, desejosos de preservarem o seu ‘mundo’, que esse mundo não existe porque o verdadeiro mundo diz respeito a todos os homens; deixa de lado os que não encontram ‘saída’ porque ao matarem a esperança renunciaram à imaginação e à capacidade de inventar a história e decidiram assim ficar à margem da própria história. A Teologia Política convida os homens a serem em comunidade, a construírem juntos o ‘projecto’ de sua existência. Convida o homem e a mulher a serem permanentemente ‘activos’ no amor, recriando-o. Convida os novos e os velhos a dizerem-se as verdades antigas sempre novas e as verdades acabadas de nascer e com esse cimento a edificarem um mundo novo. Convidam as gentes dos campos e das cidades, os trabalhadores das ideias e os trabalhadores das coisas, a dar o que têm e o que são numa interdependência consentida e procurada. Haverá, sem dúvida, em tal ‘Teologia Política’, elementos de conflito, mas, através deles, percebem-se melhor os contornos dos gestos e dos ‘factos’ e firma-se mais sólida a esperança do mundo novo. Então, como alguém dizia num encontro do Graal, ‘todos somos teólogos’ não porque isso nos traga mais prestígio (ou mais diplomas), mas porque aumenta a nossa responsabilidade de sermos Igreja. E mesmo nas situações de aparente ‘impasse’, essa responsabilidade levará a cantar o canto de esperança no mundo que ‘há-de’ vir e que já esta misteriosamente entre nós”.

Não se trata da simples substituição do binômio ‘Igreja – Estado’ pelo ‘Evangelho e ação política’. Não! A Teologia Política busca a consciência em cada um dos seres humanos para a possibilidade da auto-realização. E a faz referenciado em um exemplo: o de Jesus, o Cristo.

Finalmente, uma revelação: “O pressuposto de que o cristianismo hoje abraça um ‘projeto revolucionário’ está a tornar-se cada vez mais universal. Esse pressuposto supõe que o cristão se situa já na esfera da originalidade do cristianismo. Supõe que o cristão faz uma leitura da sociedade e da história em termos universais. Sempre afirmou acreditar numa Igreja ‘católica’ que, dizia, correspondia a universal. Hoje, o dizê-lo, sabe que, como parte dessa Igreja, é responsável perante a fome de milhões de homens, perante a violência a que se encontra submetido o destino da maioria, perante a ausência de meios de valorização de muitos por causa dos privilégios de alguns, perante as interdependências que se jogam ao plano internacional e que vêm ‘afectar’ a situação mais limitada e localizada”.

17 de agosto de 2013

Dolores Duran, um recorte biográfico


Adileia da Silva Rocha, terceira dos quatro filhos da dona de casa Josefa Silva da Rocha, dona Zefinha; criada pelo padrasto, Armindo José da Rocha, um sargento da reserva da marinha brasileira, cuja morte em 1942, a fez abandonar os estudos, não concluindo o curso primário, para assumir com a mãe a responsabilidade sobre a família.

Em 1940, com apenas 10 anos de idade, inscreveu-se no programa “Calouros em Desfile” apresentado pelo temível Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil”, na Rádio Tupi. Diz a literatura, que o dublê de compositor/apresentador cobrava do calouro o título correto da música, o nome do autor ou autores. Adileia atendeu todos os requisitos do apresentador sobre a música “Vereda Tropical”, bolero cantado por ela em português e espanhol. Com graciosidade alcançou o prêmio maior naquele dia, 500 mil réis. Um comentário feito pelo Ary Barroso chamou atenção: “Esse Tiquinho de Gente vai longe, tomem nota”.

Esse Tiquinho de Gente cantava todos os gêneros musicais e em diversos idiomas. Até em Esperanto. Esse Tiquinho de Gente era possuidor de uma inteligência fenomenal. Esse Tiquinho de Gente aprendia tudo sozinha, através de livros ou de conversas com amigos. Esse Tiquinho de Gente durante uma apresentação na boate Baccarat, onde se encontrava presente Ella Fitzgerald, interpretou “My Funny Valentine”, composta por Richard Rodgers e Lorenz Hart, para não levar aqui uma bronca de Ary Barroso “in memorian”.

Conta-se que um calouro no palco da Rádio Nacional foi interpelado por Ary:
_O que o senhor vai cantar?
_Um sambinha, respondeu o candidato.
_Um sambinha? Questionou o apresentador em tom de ironia.
_Sim! Um sambinha insistiu o calouro.
_Qual o nome deste sambinha, perguntou o apresentador.
_ “Aquarela do Brasil”, respondeu.
_Vá lá. Cante esse sambinha, ordenou o apresentador.

Assim que o apresentador caminhava para se retirar do palco eis a desgraça: _ “Brasil. Meu Brasil brasileiro. Meu mulato inzoneiro. Vou cantar-te nos meus Velsos...”. Ary Barroso, compositor da música, voltou quase que em síncope e enxotou o calouro do palco. Resmungando dizia: _Um sambinha. Aquarela do Brasil, um sambinha! Um sambinha de velsos...

Mas voltando à boate Baccarat, no que o “Tiquinho de Gente” terminou de cantar, Ella Fitzgerald não se conteve e de pé afirmou: _Esta foi a melhor interpretação que ouvi dessa música. Página musical que, além dela, Ella Fitzgerald, fora gravada por nomes como Billy Ekcstine, Frank Sinatra, Bill Evans.

My Funny Valentine - Dolores Duran

Aos 12 anos fazia parte do elenco do “Teatro da Tia Chiquinha”, programa de histórias infantis da Rádio Tupi recebendo um módico cachê que o repassava integralmente à sua mãe.

Ao participar de um dos concursos promovidos pelo radialista Renato Murça, “A procura de uma cantora de boleros”, embora não sendo a vencedora do certame, foi convidada por Lauro Pais de Andrade para um teste na boate Vogue, a casa noturna mais sofisticada no Rio de Janeiro. Aquele Tiquinho de Gente cantou em português, inglês, francês, espanhol e encantou. Aprovada, recebeu um contrato de cronner. Nascia ali Dolores Duran.

Numa noite o apresentador César de Alencar encantado com as apresentações daquela menina de 16 anos decidiu levá-la para a Rádio Nacional com um salário de 150 cruzeiros. Mais importante do que aquele salário era a visibilidade que a Rádio Nacional dava aos seus cantores e cantoras.

Conta-se que no Little Club, no Beco das Garrafas, de segunda a quinta-feira um sujeito comparecia para vê-la cantar. Sempre só, bem vestido, sentado bem próximo ao palco, depois de várias doses de um escocês legítimo desprezava o seu silêncio dirigindo-se ao “maitre” ordenando: _Manda a ‘negrinha’ cantar “Menino Grande”. Sempre a mesma justificativa do “maitre” para que o pedido fosse atendido: _Canta! Atende-o. Ele sempre gasta uma nota preta. Mesmo contrariada atendia ao pedido de seu colega de trabalho, Alberico Campana, que mais tarde se tornaria dono do estabelecimento. Um dia “p da vida” reclamou ao Billy Blanco o que acontecia. Billy compôs a música “A banca do distinto” que Dolores passou a cantar todas as noites para o cavalheiro antes de atender seu pedido. No dizer dela não era nem ao menos carinhoso, pois a chamava de “negrinha” ao invés de “neguinha”.

A banca do distinto - Dolores Duran

No amor ninguém nunca se arriscou em identificar esse ou aquele. Casou-se com o ator Macedo Neto em 1955. A impossibilidade da maternidade por parte dela fez com que o casal adotasse uma menina batizada como Maria Fernanda Virgínia da Rocha Macedo. Meses depois, em companhia de Jorge Goulart, Nora Ney, Conjunto Farroupilha, Maria Helena Raposo, Paulo Moura, dentre outros, Dolores Duran partia para uma excursão na URSS e outros países que, para ela representou um desastre. Desentendeu com os companheiros de viagem, reclamou abertamente na embaixada americana das regras estabelecidas pelas autoridades soviéticas, do hotel, da comida, de tudo e de todos. Ao invés de seguir para a China com os outros artistas brasileiros, abandonou a turnê e viajou para Paris, na França. Ao retornar ao Brasil, numa entrevista, detonou: “Gostei do povo. É bom, humilde, simples. Mas as autoridades são horríveis. Tenho pena daquela gente, do povo russo!”. Isto em plena Guerra Fria. Em sua separação compõe sua primeira música com Tom Jobim “Se é por falta de adeus”:

Se é por falta de adeus - Leny Andrade

Outro “caso” foi Nonato Pinheiro, oito anos mais moço. A família dele fez restrições não somente à diferença de idade, Dolores representava tudo o que era rejeitado como esposa pela classe média carioca: mulata e cantora de boate. Alguns amigos dizem que ela o amava, porém, ele amava Dolores Duran, não Adileia da Silva Rocha. A música “A noite do meu bem” foi composta para ele. O maior sucesso de Dolores. Num ensaio para a série “História da Música Popular Brasileira”, a ensaísta Marilena Chauí, escreve: “Dolores convoca na canção o universo para a sua noite como se a ela própria tudo faltasse para enfeitar a chegada desse bem tão demorado”.

A noite do meu bem - Dolores Duran

Um mês depois, na madrugada de 24 de outubro de 1959, após uma apresentação na boate Little Club, saiu com amigos para uma festa no Clube da Aeronáutica. Ao contrário do que muitos de seus biógrafos afirmam Dolores Duran não era uma mulher sofrida, triste, em voltas com crises de melancolia, depressão ou presa a relacionamentos passados. Não tinha o estereótipo de uma mulher com um copo de Uísque em uma das mãos e uma cigarrilha na outra. Era exatamente o contrário. Uma mulher bem-humorada, comunicativa, de boas gargalhadas, de excelente papo. Notívaga, carismática, querida, amada por todos que dela compartilhavam amizade. Chegou ao seu apartamento às 7 horas da manhã. Exausta como sempre, mas feliz. Antes de ir para o quarto fez um pedido a empregada: “Não me acorde, estou muito cansada. Vou dormir até morrer”. E morreu!

Estrada do sol - Elis Regina

Naquele dia o Brasil perdia uma de suas maiores intérpretes e uma de suas maiores compositoras 
A Música Popular Brasileira ficava mais pobre 
Morria aos 29 anos Dolores Duran

Homenagem de Elis Regina a Dolores Duran
La nuit de mon amour
Elis Regina