21 de setembro de 2013

BRIZOLA, Carrion Jr. - Porto Alegre/RS: L&PM editores, 2ª edição, 1989. 73 páginas.

Momentos de decisão

Lançado no ano de 1989, em que Leonel Brizola concorria à presidência da república. Contextualiza a ação política e administrativa dentro das questões nacionais, como a Campanha da Legalidade, que garantiu a posse do constitucional do presidente João Goulart, em 1961; sua atuação legislativa e de líder político-partidário e informações sobre os dois governos estaduais que exerceu o primeiro no Rio Grande do Sul e o segundo no Rio de Janeiro. 

Uma passagem define bem o personagem central: “A revolução de 1923, às vésperas da qual nasceu Brizola, foi uma das mais sangrentas da História do Rio Grande, marcada toda ela por guerras de fronteira e revoluções internas. O agricultor e tropeiro José Brizola, pai de quatro filhos e uma filha, fazia parte do exército de Leonel Rocha, partidário da Aliança Libertadora, contra a reeleição do governador gaúcho Borges de Medeiros. Foi só em dezembro de 1923 que foi firmada a paz, com a assinatura do Tratado de Pedras Altas, pondo fim a uma revolução que se iniciara em janeiro e ensangüentara o Rio Grande do Sul. Seguiu-se a desmobilização, devolvendo aos seus lares aqueles que haviam sobrevivido à luta, ainda que persistisse um clima de guerra, com muitas vinganças. Foi neste cenário que aquele agricultor pobre foi arrancado de sua casa, e aprisionado por uma coluna governista e morto no caminho da sede do destacamento. Seu último pedido foi a um tropeiro amigo, de nome Otávio, que cuidasse de seu filho mais novo que, nos braços da mãe Oniva, ainda seguira a coluna por mais de légua. O guri ia ter o nome de Itagiba de Moura Brizola, mas depois que sua irmã Francisca o encontrou brandindo uma espada de madeira e dizendo “eu sou Leonel Rocha”, seu nome terminou sendo Leonel de Moura Brizola.


Luiz Humberto Carrião (l.carriao@bol.com.br)

17 de setembro de 2013

A PRIVATARIA TUCANA, Amaury Ribeiro Jr. Geração Editorial, São Paulo, 2011.

O livro é “uma grande reportagem que vai devassar os subterrâneos da privatização realizada no Brasil sob o governo Fernando Henrique Cardoso”. É “resultado de uma busca incansável do jornalista Amaury Ribeiro Jr. - um dos mais importantes e premiados repórteres investigativos do país, com passagens por IstoÉ, O globo e Correio Brasiliense, entre outras redações – o livro registra as relações históricas de altos próceres do tucanato com a realização de depósitos e a abertura de empresas de fachada no exterior. Devota-se particularmente a perscrutar as atividades do clã do ex-governador paulista José Serra nesse vai e vem entre o Brasil e os paraísos caribenhos, continua o editor.

O jornalismo investigativo é assim: às vezes se dá um tiro em um beija flor e acaba acertando um elefante. Baleado por uma reportagem levada a efeito na região do Entorno de Brasília relacionada ao tráfico de drogas e assassinatos de jovens, Amaury Ribeiro Jr., foi deslocado dentro da mesma empresa para a cidade de Belo Horizonte, onde recebeu como pauta a investigação sobre a “arapongagem tucana” sobre o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, em suas viagens ao Rio de Janeiro, onde, a grande imprensa vai além da conta com ataques como esse: “Pó pará, governador?”, numa alusão de que o governador mineiro usava cocaína. Dessa investigação, juntando-se a documentos catalogados sobre a privatização neoliberal tucana, Amaury Ribeiro Jr., desnuda em 346 páginas, o que foi, no Brasil, os 8 anos FFHHCC, onde um de seus articuladores mor, o ex-governador de São Paulo, hoje no ostracismo, José Serra.

Assevera o ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em artigo publicado no site consultor jurídico, 70% do dinheiro lavado no país vem da corrupção e não mais do tráfico internacional de entorpecentes e do contrabando de armas e munição, com o ocorria antigamente”. Atentem para as ações tucanas antes, durante e depois do processo de privatização das principais empresas brasileira, que o leitor entenderá a indignação de sua excelência, o ministro Dipp.

Um livro que sepulta de vez por toda qualquer pretensão política do ex-governador José Serra. Os que a ele não tiveram acesso através da leitura, por certo o terão no horário político obrigatório, ou por inferência de um opositor em um debate político caso o ex-deputado, ex-senador, ex-ministro, ex-prefeito opte por uma eleição.

Poderia aqui evocar o poder judiciário, mas o ocorrido na mais Alta Corte do país nesses últimos dias fez órfão o povo brasileiro. Resta o quê? Acreditar na sua gente. Por isso, é de fundamental importância que A PRIVATARIA TUCANA seja lido, analisado e se possível, relido. Países co-irmãos da América Latina responderam à altura aos desmandos semelhantes ocorridos em seus países por seus políticos.

Leiam também 'O príncipe da privataria' de Palmério Dória, Geração Editora, São Paulo, 2013.

Cascatinha & Inhana, um recorte biográfico


Como deve ser a experiência de gravar uma música em 1953 e vender 300 mil cópias? Mais ainda, em 1990 esse registro ultrapassar as 3 milhões de cópias? Assim aconteceu com a guarânia paraguaia ‘Índia’, composta por H. Gimenez, numa versão para o português de José Fortuna e Pinheirinho, na voz inigualável de Inhana que, com o marido Cascatinha, formou a dupla Cascatinha e Inhana.

Numa apresentação solo no programa Viola, minha Viola apresentado pela Inezita Barroso na TV Cultura, Francisco dos Santos, o Cascatinha, revelou que o seu nome artístico foi uma herança da infância vivida na Fazenda Cascata, que presenteava as crianças com uma cachoeira que tomava emprestado o nome da propriedade no diminutivo, Cachoeira Cascatinha, e quanto a sua esposa Ana Eufrosina da Silva, ‘inhá’, uma forma de tratamento respeitoso às mulheres, daí evoluindo para ‘Inhana’. Ambos do interior do estado de São Paulo, ele de Araraquara, 1919, e ela de Araras, 1923.


India - Cascatinha & Inhana


Além de cantar canções e valsas românticas, Francisco dos Santos tocava violão e bateria. Certa feita passou pela cidade um circo, Nova Iorque, que trazia em seu elenco o cantor Chopp que, numa ‘canja’ entre eles, perceberam que as vozes acasalavam muito bem, o que os levou à formação da dupla, Chopp & Cascatinha, aliás, o apelido de infância caiu bem para a dupla, uma vez que ‘Cascatinha’ era o nome de uma renomada cerveja à época. Enquanto isso, Ana Eufrosina se apresentava como ‘cronner’ em um ‘conjunto musical’ formado pelos seus irmãos. E foi numa dessas andanças da dupla Chopp & Cascatinha com os circos pelo interior do Estado de São Paulo que Francisco e Ana se conheceram e casaram em 1941, formando o Trio Esperança com Chopp, Cascatinha & Inhana.

 No Rio de Janeiro o Trio Esperança fez relativo sucesso com apresentações nos programas de César Ladeira (Rádio Mayrink Veiga), Manoel Barcelos e o famoso ‘Papel Carbono’ de Renato Murce, ambos na Rádio Nacional. Chegaram a ser premiados por estes programas.

Em 1942, o Trio Esperança se desfaz com a saída de Chopp, o que levou a então dupla Cascatinha & Inhana a se ingressarem no Circo Estrêla D’Alva, fazendo as praças dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e, posteriormente, fixando em solo paulista por cinco anos no Circo Imperial.

Em 1942, o Trio Esperança se desfaz com a saída de Chopp, o que levou a então dupla Cascatinha & Inhana a se ingressarem no Circo Estrêla D’Alva, fazendo as praças dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e, posteriormente, fixando em solo paulista por cinco anos no Circo Imperial.

No ano de 1947, a dupla se apresentou na Bauru Rádio Clube, nos programas ‘Luar do Sertão’ e ‘Cirquinho do Benjamim’. 1948, na Rádio América, na cidade de São Paulo, e, 1950, contratada pela Rádio Record, ali permanecendo por 12 anos. Em 1951, estreia no disco pela Todamérica através de uma versão da canção de Sebastian Yradier, ‘La Paloma’, 1863, após uma visita do compositor a Cuba. Um sucesso tamanho que popularizou Havana para o mundo.

Em 1952 aconteceu! A dupla gravou as guarânias ‘India’ e ‘Meu primeiro amor’, ambas paraguaias. Nos anos de 1951 e 1953 recebeu o Prêmio Roquette Pinto, entregue aos melhores profissionais do rádio e da televisão brasileira. Criado em 1950, em suas 26 edições foi comparado em importância ao ‘Oscar’ americano. De longe a melhor premiação brasileira neste viés.

Em 1953 a dupla consagrou-se com a gravação de ‘mulher rendeira’, folclore nordestino com o arranjo de João de Barro, que lhe rendeu a ‘Medalha de Ouro’ da Revista Equipe, no ano seguinte, 1954. A partir de então a dupla focou em polcas e guarânias paraguaias, boleros mexicanos, composições de Zé Fortuna, Mario Zan até que em 1959, outro estrondo, ‘Colcha de retalhos’, de Raul Torres. Ainda líder nas paradas de sucesso com ‘Índia, Meu primeiro amor, Mulher rendeira, Flor serrana, Assuncion, Queira-me muito, Recordações de Ipacaray, Colcha de retalhos’ explode com ‘Flor do cafezal’, de Carlos Paraná. A essas alturas, Cascatinha exercia o cargo de diretor artístico da Todamérica.

A história de Francisco dos Santos, o ‘cascatinha’, e Ana Eufrosina na Silva, a ‘Inhana’, no escrever de um de seus biógrafos é matéria para virar música, poesia, filme, documentário. “Ele estava em Araras, no interior paulista, se apresentando com o Circo Nova Iorque, e ela foi assisti-lo. Ela tinha 17 anos, estava noiva, mas seu destino estava escrito. ‘Quando vi aquele mulato tocando violão, me apaixonei’, contou ela. O violeiro e a moreninha se casaram cinco meses depois, no dia 23 de setembro de 1941. Cantaram nos picadeiros de centenas de circos por todo o país, gravaram 54 discos em 78 rpm e 30 Lps. Venderam milhares de discos numa época em que vitrola era artigo de luxo. Cantaram o Brasil mulato, o Brasil caboclo, o Brasil fronteiriço a outros sons e culturas, traduziram a linguagem rítmica e poética de um país que nos anos 50 vivia um acelerado processo de urbanização”.

Na entrada da primavera de 1981 estariam completando 40 anos de casados, fruto de um namoro e noivado de cinco meses. Era véspera do dia dos namorados, 11 de junho. Inhana encontrava-se num salão de beleza se preparando para comemorar o dia seguinte junto de seu mulato, como ela o chamava carinhosamente, quando sentiu mal. Não teve jeito, ‘Mas quanta ilusão! Tudo é solidão, ela já morreu! E a brisa sem dó, apagou no pó, o rastinho seu’. Versos da canção Che Pycasu Mi gravada pela dupla com o nome de Solidão.


Solidão (Che Pykasu mi) - Cascatinha & Inhana


Che Pykasu Mi, uma canção de amor composta na década de 1930, pelo professor, músico, poeta Cecílio Valiente para sua namorada Luisa Carmona, no lugarejo de Ycuá Mbocaya de Yaguarón, no Paraguai.

Che Pykasu Mi (letra em Guarany)

Che pykasu mi reveve vaekué chehegui rehóvo
Oúva ne ange cada pyhare che kéra jopy;
Rohayhúgui ai ajepy’apÿva che ne ra’arôvo,
Michinte jepépa ndaivevuivéi che mba’embyasy
Ne añaitégui ndénte aikóva ko’âicha aikove asy
Jaikóma rire ku juayhu porâme oñondivete;
Resê reveve che rejarei, Che motyre’y
Aico cikorey ndavy’amivéi upete guive. 

Cascatinha após a morte de Inhana tentou a carreira ‘solo’, inclusive na regravação da música Solidão (Che Pukasu mi) numa homenagem a companheira de longa caminhada, ‘Tudo se acabou, nada mais restou neste meu viver. Ela lá no céu e eu andando ao léu sempre a padecer. Espero, porém, que um dia no além, tornarei lhe a ver. Mas isto será só quando eu morrer’. E foi. No dia 14 de março de 1996, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São José do Rio Preto, com cirrose hepática, partiu Francisco dos Santos ao encontro de Ana Eufrosina da Silva, a Inhana.