30 de agosto de 2013

O PRÍNCIPE DA PRIVATARIA, Palmério Dória. Geração Editora. São Paulo. 2013


A história secreta de como o Brasil perdeu seu patrimônio e Fernando Henrique Cardoso ganhou sua reeleição

Em tempos de análise dos recursos interpostos pelos réus da Ação Penal 470 (Mensalão); do rolo compressor da ‘Bancada da Papuda’, na Câmara Federal para absolver da perda de mandato o deputado Federal por Rondônia, Natan Donadon, condenado a 13 anos de 8 meses de prisão em última instância; da expectativa aos próximos capítulos da novela ‘Trensalão’, escândalo de corrupção evolvendo os governos tucanos no Estado de São Paulo e a multinacional Siemens; da indignação com que foram tratados os médicos cubanos em sua chegada ao Brasil pelos ‘amestrados’ e por parte da classe médica brasileira, chega hoje, sexta-feira/30, às livrarias o livro ‘O príncipe da Privataria’, de Palmério Dória. 

'O Príncipe da Privataria", livro-reportagem que trata da articulação e aprovação da emenda constitucional da reeleição, 1997, que beneficiou o então presidente FHC, se apresenta  aos moldes dos livros ‘Privataria Tucana’ e ‘Honoráveis Bandidos’, publicados pela mesma editora.

A ‘bancada do é dando que se recebe’ era composta por 150 parlamentares não pertencentes à base aliada do ‘Príncipe’, que, segundo Dória, foram ‘agraciados’ com um cheque de 200 mil reais cada, antes da aprovação da emenda, que foram trocados por dinheiro após a aprovação, como naquela história hilária de que no interior do Brasil se troca o voto por um par de botinas, dando o esquerdo antes e o direito após a eleição do candidato.

Articulada por Sérgio Motta, o escudeiro do ‘Príncipe’, a manobra tinha claramente interesses paroquiais, os governadores de estado, que foram, na sua maioria, beneficiados com a emenda.

Como avalia o blogueiro Luiz Carlos Azenha (blog Viomundo), “o livro ‘O Príncipe da Privataria’ é, na verdade, um balanço em torno do homem que ‘vendeu o Brasil’”. Uma denúncia menos na linha de Amaury Ribeiro Junior, em ‘Privataria Tucana’, e mais, na de Aluísio Bionde, em ‘O Brasil privatizado’.

Leiam também 'A privataria tucana' de Amaury Ribeiro Jr, Geração Editora, São Paulo, 2011.

28 de agosto de 2013

Texto outdoor, uma mensagem captada a velocidade da luz


Você que me lê neste momento já se deu conta da existência de uma linguagem visual que nos cerca 24h diuturnamente?

Na correria diária alguma vez você parou e interpretou alguma dessas imagens?

O mundo passa atualmente pelo que especialistas chamam de crise de leitura. Lê-se muito pouco. A imagem vai ocupando o espaço do texto. Uma figura também possibilita a expressão de um pensamento. É um texto sem palavras, mas com sentido. Ou então, o texto outdoor. Aquele bem trabalhado com frases e imagens remetendo a mensagem quase que a velocidade da luz ao consciente do leitor.
   
A imagem acima faz uma crítica a Cuba referenciando à vinda dos médicos daquele país para o programa ‘Mais Médicos’ implementado através de Medida Provisória pela presidente Dilma Rousseff.

A primeira figura que chama a atenção é do revolucionário Ernesto Che Guevara, símbolo da revolução cubana. Em seguida duas frases: trabalhe 100% e Receba 20%, numa alusão ao que tem sido veiculado na mídia do que os médicos cubanos repassarão de seus salários para a Ilha, 80%. Finalmente, a bandeira cubana com uma marca capitalista, o cartão de crédito. Ali se expressa o nome Cuba Card, com o slogan: ‘seu cartão de Fidel-lidade’, numa referência a Fidel Castro.

Médicos cubanos remetem 80% de seus salários para Cuba, e nós? O que remetemos ao governo brasileiro? Você já parou para pensar nisso? Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o brasileiro trabalha de janeiro a maio (cinco meses no ano) para pagar impostos. Sabe o que isso representa? 41,666% de sua renda anual.

Não é objetivo fazer apologia ao regime cubano. Não! Mesmo porque o sonho de uma sociedade justa ficou muito distante. Isto é assunto para outro texto. Precisamos estar atentos a essas propagandas e decifrar o que se encontra embutido nas mensagens. Nem sempre o que reluz é ouro.

18 de agosto de 2013

IMAGINAR A IGREJA, Maria de Lourdes Pintasilgo. Editora Multinova. Lisboa. 1980. 122 páginas.


Reflexões ultrapassadas?

Um livro chama a atenção pelos comentários na mídia, pelo título ou pela beleza da capa. Este me chamou a atenção pelo preço, R$1,00, isto mesmo, um real. Onde? Numa loja dessas que comercializam livros usados, os Sebos. Pode até ser que o título, “Imaginar a Igreja”, após a meteórica visita do papa Francisco ao Brasil tenha também chamado minha atenção.

Abrindo aleatoriamente suas páginas deparo com um questionamento:
1.     Será possível ter fé sem fazer calar o ser inteligente que habita em nós?
2.     Será verdadeiro o ‘acto’ de fé que é condicionado pela estrutura social e ideológica de uma Igreja?
3.   Será compatível a afirmação personalizada da fé com a aceitação de ideias e ‘factos’ que não é possível verificar ‘directamente’?
4.     Em outros termos: será a fé uma ‘alienação’ da liberdade?

Fé (do latim fides = fidelidade) pela absoluta confiança, sem qualquer tipo de prova ou verificação, acompanhada de absoluta abstinência de dúvida, ela é a firme opinião de que algo é verdadeiro. (Rayalties a WikipédiA).

Como contributo para resposta aos questionamentos a explicitação do conceito de liberdade se faz necessário, segundo a autora, para quem a liberdade que a distingue como pessoa não é a capacidade de decidir sobre isto ou aquilo, mas a capacidade de reconhecer, aceitar e situar-se. “Tal liberdade não é um instrumento a utilizar apenas em circunstâncias especiais da vida – ela é o tecido da minha própria existência”.

Jesus é visto na obra como o acontecimento central da vida pessoal e da história coletiva do mundo ocidental. Abriu o caminho de uma vida humana inteiramente realizada, porque Cristo foi um de nós.

Ser Cristão é realizar-se. Ser Igreja é propiciar essa realização coletiva.

A autora ao falar da “Teologia do Laicado” apresenta como marco inicial o célebre livro “Verdadeira e falsa reforma da Igreja”, de Yves Marie-joseph Congar, teólogo dominicano, correspondendo à substituição da ‘Teologia ciência da verdade de Deus’, pela ‘Teologia ciência da revelação constante de Deus’, onde o homem passou a significar alguma coisa nessa revelação divina. “A eles se atribuía a própria continuidade da Redenção iniciada por Jesus Cristo”.

O papa João XXIII ao propor o Concílio Vaticano II usou a palavra ‘aggiornamento’ na tarefa de repensar a Igreja para o mundo. “Daí que não fizesse mais sentido falar em cristãos ‘ao serviço da Igreja’, mas sim, em comunidades de crentes ao serviço do mundo”. O progresso técnico alcançado durante e após a II Grande Guerra Mundial elaborou uma nova Teologia, a ‘Teologia das realidades terrestres’. “O lugar da responsabilidade era obviamente o mundo na significação que adquiria à luz de uma nova teologia”. E hoje, a teologia em pauta é a ‘Teologia da Libertação’, embora o papa Francisco tenha evitado mencioná-la. Aliás, substituiu a expressão “pelos pobres” para “dos pobres”.

Finalmente, a Teologia Política. “É uma teologia de homens em comunidade. Acaba de vez com os ‘iluminados’ de quem nenhuma luz irradia; diz aos ‘individualistas’, desejosos de preservarem o seu ‘mundo’, que esse mundo não existe porque o verdadeiro mundo diz respeito a todos os homens; deixa de lado os que não encontram ‘saída’ porque ao matarem a esperança renunciaram à imaginação e à capacidade de inventar a história e decidiram assim ficar à margem da própria história. A Teologia Política convida os homens a serem em comunidade, a construírem juntos o ‘projecto’ de sua existência. Convida o homem e a mulher a serem permanentemente ‘activos’ no amor, recriando-o. Convida os novos e os velhos a dizerem-se as verdades antigas sempre novas e as verdades acabadas de nascer e com esse cimento a edificarem um mundo novo. Convidam as gentes dos campos e das cidades, os trabalhadores das ideias e os trabalhadores das coisas, a dar o que têm e o que são numa interdependência consentida e procurada. Haverá, sem dúvida, em tal ‘Teologia Política’, elementos de conflito, mas, através deles, percebem-se melhor os contornos dos gestos e dos ‘factos’ e firma-se mais sólida a esperança do mundo novo. Então, como alguém dizia num encontro do Graal, ‘todos somos teólogos’ não porque isso nos traga mais prestígio (ou mais diplomas), mas porque aumenta a nossa responsabilidade de sermos Igreja. E mesmo nas situações de aparente ‘impasse’, essa responsabilidade levará a cantar o canto de esperança no mundo que ‘há-de’ vir e que já esta misteriosamente entre nós”.

Não se trata da simples substituição do binômio ‘Igreja – Estado’ pelo ‘Evangelho e ação política’. Não! A Teologia Política busca a consciência em cada um dos seres humanos para a possibilidade da auto-realização. E a faz referenciado em um exemplo: o de Jesus, o Cristo.

Finalmente, uma revelação: “O pressuposto de que o cristianismo hoje abraça um ‘projeto revolucionário’ está a tornar-se cada vez mais universal. Esse pressuposto supõe que o cristão se situa já na esfera da originalidade do cristianismo. Supõe que o cristão faz uma leitura da sociedade e da história em termos universais. Sempre afirmou acreditar numa Igreja ‘católica’ que, dizia, correspondia a universal. Hoje, o dizê-lo, sabe que, como parte dessa Igreja, é responsável perante a fome de milhões de homens, perante a violência a que se encontra submetido o destino da maioria, perante a ausência de meios de valorização de muitos por causa dos privilégios de alguns, perante as interdependências que se jogam ao plano internacional e que vêm ‘afectar’ a situação mais limitada e localizada”.

17 de agosto de 2013

Dolores Duran, um recorte biográfico


Adileia da Silva Rocha, terceira dos quatro filhos da dona de casa Josefa Silva da Rocha, dona Zefinha; criada pelo padrasto, Armindo José da Rocha, um sargento da reserva da marinha brasileira, cuja morte em 1942, a fez abandonar os estudos, não concluindo o curso primário, para assumir com a mãe a responsabilidade sobre a família.

Em 1940, com apenas 10 anos de idade, inscreveu-se no programa “Calouros em Desfile” apresentado pelo temível Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil”, na Rádio Tupi. Diz a literatura, que o dublê de compositor/apresentador cobrava do calouro o título correto da música, o nome do autor ou autores. Adileia atendeu todos os requisitos do apresentador sobre a música “Vereda Tropical”, bolero cantado por ela em português e espanhol. Com graciosidade alcançou o prêmio maior naquele dia, 500 mil réis. Um comentário feito pelo Ary Barroso chamou atenção: “Esse Tiquinho de Gente vai longe, tomem nota”.

Esse Tiquinho de Gente cantava todos os gêneros musicais e em diversos idiomas. Até em Esperanto. Esse Tiquinho de Gente era possuidor de uma inteligência fenomenal. Esse Tiquinho de Gente aprendia tudo sozinha, através de livros ou de conversas com amigos. Esse Tiquinho de Gente durante uma apresentação na boate Baccarat, onde se encontrava presente Ella Fitzgerald, interpretou “My Funny Valentine”, composta por Richard Rodgers e Lorenz Hart, para não levar aqui uma bronca de Ary Barroso “in memorian”.

Conta-se que um calouro no palco da Rádio Nacional foi interpelado por Ary:
_O que o senhor vai cantar?
_Um sambinha, respondeu o candidato.
_Um sambinha? Questionou o apresentador em tom de ironia.
_Sim! Um sambinha insistiu o calouro.
_Qual o nome deste sambinha, perguntou o apresentador.
_ “Aquarela do Brasil”, respondeu.
_Vá lá. Cante esse sambinha, ordenou o apresentador.

Assim que o apresentador caminhava para se retirar do palco eis a desgraça: _ “Brasil. Meu Brasil brasileiro. Meu mulato inzoneiro. Vou cantar-te nos meus Velsos...”. Ary Barroso, compositor da música, voltou quase que em síncope e enxotou o calouro do palco. Resmungando dizia: _Um sambinha. Aquarela do Brasil, um sambinha! Um sambinha de velsos...

Mas voltando à boate Baccarat, no que o “Tiquinho de Gente” terminou de cantar, Ella Fitzgerald não se conteve e de pé afirmou: _Esta foi a melhor interpretação que ouvi dessa música. Página musical que, além dela, Ella Fitzgerald, fora gravada por nomes como Billy Ekcstine, Frank Sinatra, Bill Evans.

My Funny Valentine - Dolores Duran

Aos 12 anos fazia parte do elenco do “Teatro da Tia Chiquinha”, programa de histórias infantis da Rádio Tupi recebendo um módico cachê que o repassava integralmente à sua mãe.

Ao participar de um dos concursos promovidos pelo radialista Renato Murça, “A procura de uma cantora de boleros”, embora não sendo a vencedora do certame, foi convidada por Lauro Pais de Andrade para um teste na boate Vogue, a casa noturna mais sofisticada no Rio de Janeiro. Aquele Tiquinho de Gente cantou em português, inglês, francês, espanhol e encantou. Aprovada, recebeu um contrato de cronner. Nascia ali Dolores Duran.

Numa noite o apresentador César de Alencar encantado com as apresentações daquela menina de 16 anos decidiu levá-la para a Rádio Nacional com um salário de 150 cruzeiros. Mais importante do que aquele salário era a visibilidade que a Rádio Nacional dava aos seus cantores e cantoras.

Conta-se que no Little Club, no Beco das Garrafas, de segunda a quinta-feira um sujeito comparecia para vê-la cantar. Sempre só, bem vestido, sentado bem próximo ao palco, depois de várias doses de um escocês legítimo desprezava o seu silêncio dirigindo-se ao “maitre” ordenando: _Manda a ‘negrinha’ cantar “Menino Grande”. Sempre a mesma justificativa do “maitre” para que o pedido fosse atendido: _Canta! Atende-o. Ele sempre gasta uma nota preta. Mesmo contrariada atendia ao pedido de seu colega de trabalho, Alberico Campana, que mais tarde se tornaria dono do estabelecimento. Um dia “p da vida” reclamou ao Billy Blanco o que acontecia. Billy compôs a música “A banca do distinto” que Dolores passou a cantar todas as noites para o cavalheiro antes de atender seu pedido. No dizer dela não era nem ao menos carinhoso, pois a chamava de “negrinha” ao invés de “neguinha”.

A banca do distinto - Dolores Duran

No amor ninguém nunca se arriscou em identificar esse ou aquele. Casou-se com o ator Macedo Neto em 1955. A impossibilidade da maternidade por parte dela fez com que o casal adotasse uma menina batizada como Maria Fernanda Virgínia da Rocha Macedo. Meses depois, em companhia de Jorge Goulart, Nora Ney, Conjunto Farroupilha, Maria Helena Raposo, Paulo Moura, dentre outros, Dolores Duran partia para uma excursão na URSS e outros países que, para ela representou um desastre. Desentendeu com os companheiros de viagem, reclamou abertamente na embaixada americana das regras estabelecidas pelas autoridades soviéticas, do hotel, da comida, de tudo e de todos. Ao invés de seguir para a China com os outros artistas brasileiros, abandonou a turnê e viajou para Paris, na França. Ao retornar ao Brasil, numa entrevista, detonou: “Gostei do povo. É bom, humilde, simples. Mas as autoridades são horríveis. Tenho pena daquela gente, do povo russo!”. Isto em plena Guerra Fria. Em sua separação compõe sua primeira música com Tom Jobim “Se é por falta de adeus”:

Se é por falta de adeus - Leny Andrade

Outro “caso” foi Nonato Pinheiro, oito anos mais moço. A família dele fez restrições não somente à diferença de idade, Dolores representava tudo o que era rejeitado como esposa pela classe média carioca: mulata e cantora de boate. Alguns amigos dizem que ela o amava, porém, ele amava Dolores Duran, não Adileia da Silva Rocha. A música “A noite do meu bem” foi composta para ele. O maior sucesso de Dolores. Num ensaio para a série “História da Música Popular Brasileira”, a ensaísta Marilena Chauí, escreve: “Dolores convoca na canção o universo para a sua noite como se a ela própria tudo faltasse para enfeitar a chegada desse bem tão demorado”.

A noite do meu bem - Dolores Duran

Um mês depois, na madrugada de 24 de outubro de 1959, após uma apresentação na boate Little Club, saiu com amigos para uma festa no Clube da Aeronáutica. Ao contrário do que muitos de seus biógrafos afirmam Dolores Duran não era uma mulher sofrida, triste, em voltas com crises de melancolia, depressão ou presa a relacionamentos passados. Não tinha o estereótipo de uma mulher com um copo de Uísque em uma das mãos e uma cigarrilha na outra. Era exatamente o contrário. Uma mulher bem-humorada, comunicativa, de boas gargalhadas, de excelente papo. Notívaga, carismática, querida, amada por todos que dela compartilhavam amizade. Chegou ao seu apartamento às 7 horas da manhã. Exausta como sempre, mas feliz. Antes de ir para o quarto fez um pedido a empregada: “Não me acorde, estou muito cansada. Vou dormir até morrer”. E morreu!

Estrada do sol - Elis Regina

Naquele dia o Brasil perdia uma de suas maiores intérpretes e uma de suas maiores compositoras 
A Música Popular Brasileira ficava mais pobre 
Morria aos 29 anos Dolores Duran

Homenagem de Elis Regina a Dolores Duran
La nuit de mon amour
Elis Regina